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terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder (1930-2015)

É através da voz do próprio, e com o seu característico sotaque madeirense, que prestamos homenagem ao poeta português Herberto Helder (Prémio Pessoa 1994), falecido ontem.





Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisas puras.
Renascia.
                                                                                             

sexta-feira, 20 de março de 2015

Agenda: Dia Mundial da Poesia

(Foto de uma poemografia de Heduardo Kiesse, autor de Paradoxos, © Cláudia Pinto, Lisboa, 2014)

«Eu tenho uma definição que poesia é a armação de palavras com um canto dentro», diz o poeta brasileiro Manoel de Barros (1916-2014), no minuto 10:33 do documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar. Cada um terá a sua definição de poesia, mas amanhã ela é celebrada em várias partes do mundo, através do Dia Mundial da Poesia, uma iniciativa da UNESCO.

Em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa promove leituras em cafés, um concerto e uma mesa-redonda sobre novos poetas e novas poéticas. Mais informações aqui. O Centro Cultural de Belém dedica o evento Maratona de Leitura ao poeta Cesário Verde, promove leituras comentadas de poemas de Ernesto Cardenal, Octavio Paz, Pablo Neruda, Vinícius de Morais e Manoel de Barros e convida poetas portugueses contemporâneos a lerem poemas seus ou de outros. Mais informações aqui. No Teatro Nacional D. Maria II serão declamados poemas de Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Mais informações aqui.

No Porto, os Jardins do Palácio de Cristal acolhem a celebração da vida e obra da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais informações aqui.

Em Lisboa, no Porto, em qualquer parte de Portugal ou do mundo, onde quer que estejam, poesiem-se!






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