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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Agenda: FOLIO 2017



Começou hoje, e decorre até ao próximo dia 29, o Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO).

Dedicado este ano ao tema da revolução, o FOLIO 2017 inclui conferências, mesas-redondas, conversas com autores, apresentação de livros, cinema, concertos e exposições.

O programa está disponível aqui (por dias) ou aqui (completo).

domingo, 15 de outubro de 2017

Agustina Bessa-Luís



«[...] Mas eu própria já disse que não me levo muito a sério. É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida.
[...]
A vida humana não tem que ver com esta divisão do tempo. Vive-se todos os tempos ao mesmo tempo.
[...]
É a dor que define a nossa vida?
Sim. E a maneira como se vive, como se aceita, como se evita e sobretudo como se transcende a dor.»


As palavras acima pertencem à escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, cujo 95.º aniversário se celebra hoje e cuja obra está a ser reeditada pela editora Relógio d'Água.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Agenda: FOLIO 2016


A vila de Óbidos prepara-se para receber pelo segundo ano consecutivo o Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO) a partir do próximo dia 22 de Setembro.

Durante o festival será possível assistir a conversas com autores nacionais e estrangeiros, como, por exemplo, V.S. Naipul (dia 22), Andrea del Fuego e Afonso Cruz (dia 23), Luísa Costa Gomes e Jacinto Lucas Pires (dia 24) ou Salman Rushdie (dia 30), mas também a aulas, seminários, exposições, cinema, teatro e concertos

Uma das novidades deste ano é a possibilidade de viajar de comboio literário até Óbidos, a partir da estação do Rossio, em Lisboa.

Os bilhetes para os eventos pagos já podem ser adquiridos online. O programa pode ser consultado aqui.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Agenda: Correntes d’Escritas 2016


De 23 a 27 de Fevereiro decorre, na Póvoa de Varzim, a 17.ª edição do Correntes d’Escritas, um encontro de escritores de expressão ibérica.

Com mais de 70 escritores convidados de 11 países, o evento homenageia o escritor português António Lobo Antunes e prevê debates, lançamentos de livros, exposições, sessões em escolas, música, cinema, uma feira do livro e a atribuição de prémios literários.

Informações sobre o programa aqui.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Agenda: Centenário de Vergílio Ferreira

Se eu soubesse a palavra,
a que subjaz aos milhões das que já disse,
a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,
a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,
a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,
a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,
a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,
a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,
a que está antes de uma grande Lua nascer,
a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,
a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,
a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,
a que está num astro morto onde ninguém foi,
a que está numa pedra quando a olho a sós,
a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,
a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,
a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,
a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,
a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,
– se eu soubesse a palavra,
a única, a última,
e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 2, 2.ª edição, Amadora: Livraria Bertrand, 1981, pp.64-65.


Celebramos hoje o centenário do nascimento do escritor português Vergílio Ferreira (1916-1996), prémio Camões 1992.

Estão previstas diversas acções comemorativas da efeméride, incluindo dois colóquios internacionais.

O colóquio “Vergílio Ferreira: entre o silêncio e a palavra total” é uma organização conjunta do departamento de Linguística e Literaturas e do departamento de Filosofia da Universidade de Évora, decorre de 29 de Fevereiro a 2 de Março e reúne vários investigadores da obra ficcional e ensaística do autor. 



O colóquio “Vergílio Ferreira – Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte”, organizado em conjunto pelo município de Gouveia e pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, realiza-se de 18 a 19 de Maio, no Porto, e de 20 a 21 de Maio, em Gouveia.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Agenda: FOLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos



De 15 a 26 de Outubro, realiza-se a primeira edição do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.

Óbidos, conhecida como a vila do chocolate, pretende assim consolidar também a designação de vila literária. O festival, de vocação lusófona, inspira-se na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP (não confundir com o FLiP, pacote de ferramentas de auxílio à escrita em português :) ), e reúne perto de 200 autores, portugueses e estrangeiros. 

Debates, apresentações de livros, sessões de autógrafos, workshops para grupos escolares e sessões de leitura fazem parte da programação, bem como exposições, tertúlias, concertos, cinema, teatro e aulas abertas ao público. Por exemplo, no dia 18 de Outubro, os escritores José Eduardo Agualusa e Mia Couto dão uma aula sobre literatura africana e, no dia 22, Gonçalo M. Tavares dá uma aula sobre a cegueira na literatura e nas artes, partindo da obra Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.


Os bilhetes para os eventos pagos – aulas, concertos, teatro ou conversas, como a do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo com o humorista português Ricardo Araújo Pereira, no dia 24 – já podem ser adquiridos online.

Mais informação sobre a programação aqui ou aqui.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Agenda: V Encontro de Escritores Lusófonos


A V Bienal de Culturas Lusófonas, que decorre em Odivelas até ao final deste mês, celebra a diversidade e a multiculturalidade nas artes plásticas, na dança, na música, no teatro e na literatura dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

É nesse âmbito que se realiza o V Encontro de Escritores Lusófonos, de 19 a 21 de Maio, evento que reúne autores angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, portugueses e são-tomenses, que irão participar de debates e de lançamento de livros.

Mais informações sobre o programa detalhado aqui.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Agenda: Minha língua, minha pátria


De 10 a 15 de Abril, decorre em São Paulo, no Brasil, o evento Minha pátria, minha língua.

Promovido pela Livraria Cultura e pelo jornal português Público, o evento é de entrada gratuita e vai reunir escritores brasileiros e portugueses para dar a conhecer os novos nomes da literatura de língua portuguesa e para debater a obra de autores consagrados, como Fernando Pessoa e Eça de Queirós. 

Informação sobre programação, participantes, local e contactos pode ser consultada aqui.

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder (1930-2015)

É através da voz do próprio, e com o seu característico sotaque madeirense, que prestamos homenagem ao poeta português Herberto Helder (Prémio Pessoa 1994), falecido ontem.





Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisas puras.
Renascia.
                                                                                             

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Auto-retrato



Falecido há pouco mais de um mês, o poeta brasileiro Manoel de Barros comemoraria hoje o seu 98.º aniversário. Celebramos a data com as palavras do seu auto-retrato:

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.

Manoel de Barros, Poesia Completa, Lisboa: Leya, 2010, p. 337.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Explicação de uma vez por todas


Celebramos hoje o nascimento da escritora brasileira Clarice Lispector (1920-1977) com um excerto de uma crónica sua onde a autora procurava esclarecer, “de uma vez por todas”, que, apesar de ter nascido na Ucrânia, era brasileira:

“[...] Cheguei ao Brasil com apenas dois meses de idade.
        Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife e acho que viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira que lá, no interior, não recebe influência de costumes de outros países. Minhas crendices foram aprendidas em Pernambuco, as comidas que mais gosto são pernambucanas. E através de empregadas, aprendi o rico folclore de lá. 
        Somente na puberdade vim para o Rio com minha família: era a cidade grande e cosmopolita que, no entanto, em breve se tornava para mim brasileira-carioca. 
       Quanto a meus r enrolados, estilo francês, quando falo, e que me dão um ar de estrangeira, trata-se apenas de um defeito de dicção: simplesmente não consigo falar de outro jeito. Defeito esse que meu amigo Dr. Pedro Bloch disse ser facílimo de corrigir e que ele faria isso para mim. Mas sou preguiçosa, sei de antemão que não faria os exercícios em casa. E além do mais meus r não me fazem mal algum. [...]”

in A Descoberta do Mundo

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Agenda: Borderlands Reinvented and Revisited: Portuguese Language Literature in Print and Image


A Universidade do Novo México, nos Estados Unidos da América, inaugura hoje a exposição Borderlands Reinvented and Revisited: Portuguese Language Literature in Print and Image (Zonas de Fronteira Reinventadas e Revisitadas: Literatura Portuguesa em Texto e Imagem), que põe em destaque obras de autores portugueses e brasileiros em diferentes formatos, desde o texto impresso até formatos mais populares como a banda desenhada, o filme ou o cordel.

Ao demonstrar a transição de textos e autores entre os diferentes formatos, a exposição visa questionar a dicotomia entre alta e baixa cultura, para além de apresentar publicamente o acervo bibliográfico e pictórico em língua portuguesa da universidade.

A exposição estará patente até 15 de Maio próximo. Mais informação aqui.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Perdida mente...



Relembramos hoje Florbela Espanca com o soneto “Amar!”, no dia em que se comemoram os aniversários do nascimento e da morte da poetisa portuguesa:


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, Sonetos, 30.ª ed., Lisboa: Bertrand Editora, 1999, p.137



domingo, 30 de novembro de 2014

Porque a ortografia também é gente

Fernando Pessoa, Bernardo Soares, Ricardo Reis, Álvaro de Campos. Autor: Rui Pimentel

No dia do aniversário da sua morte, sugerimos a (re)leitura do texto de onde foi retirada uma das frases mais célebres de Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa - “Minha pátria é a língua portuguesa”: 

«Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.
      Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso. 
      Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez, numa selecta, o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo até ao fim, trémulo, confuso; depois rompi em lágrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais — tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro. Não é — não — a saudade da infância, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica. 
      Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. 
      Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.» 

Bernardo Soares, fragmento 259, Livro do Desassossego


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros (1916-2014)


Homenageamos o poeta brasileiro Manoel de Barros (Prémio Jabuti 1989), hoje falecido:

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos 
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de 
um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros, O livro das ignorãças, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.17. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Agenda: New Portuguese Writers



A obra dos escritores portugueses Dulce Maria Cardoso e Afonso Cruz vai estar em destaque nos próximos dias em Nova Iorque, no âmbito do New Portuguese Writers, iniciativa do Arte Institute

Estão previstas leituras interpretadas de textos dos dois autores no sábado, dia 25, no Metropolitan Museum of Art, e conferências de ambos os escritores na segunda-feira, dia 27, no King Juan Carlos Center.

Mais informação aqui (em português) e aqui (em inglês).

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eduardo White (1963-2014)



Prestamos homenagem ao poeta moçambicano Eduardo White (Prémio Glória de Sant'Anna 2013), falecido ontem em Maputo, com o poema “O que vocês não sabem e nem imaginam”: 


Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações
[Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo,
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.

Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Suassuna (1927-2014)



Homenageamos o escritor brasileiro Ariano Suassuna, recentemente falecido, com o excerto da sua obra-prima teatral em que uma das personagens não esconde seu espanto perante um Cristo negro:


«JOÃO GRILO
Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo, sinto perfeitamente que estou diante de uma grande figura. Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante, mas se não me engano aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel.

MANUEL
Foi isso mesmo, João. Esse é um de meus nomes, mas você pode me chamar também de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele gosta de me chamar Manuel ou Emanuel, porque pensa que assim pode se persuadir de que sou somente homem. Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus.

JOÃO GRILO
Jesus?

MANUEL
Sim.

JOÃO GRILO
Mas, espere, o senhor é que é Jesus?

MANUEL
Sou.

JOÃO GRILO
Aquele Jesus a quem chamavam Cristo?

MANUEL
A quem chamavam, não, que era Cristo. Sou, por quê?

JOÃO GRILO
Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado.

BISPO
Cale-se, atrevido.

MANUEL
Cale-se você. Com que autoridade está repreendendo os outros? Você foi um bispo indigno de minha Igreja, mundano, autoritário, soberbo. Seu tempo já passou. Muita oportunidade teve de exercer sua autoridade, santificando-se através dela. Sua obrigação era ser humilde porque quanto mais alta é a função, mais generosidade e virtude requer. Que direito tem você de repreender João porque falou comigo com certa intimidade? João foi um pobre em vida e provou sua sinceridade exibindo seu pensamento. Você estava mais espantado do que ele e escondeu essa admiração por prudência mundana. O tempo da mentira já passou.

JOÃO GRILO
Muito bem. Falou pouco mas falou bonito. A cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto.

MANUEL
Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?» 

Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida, 11.ª ed., Rio de Janeiro: Agir Editora, 16975, pp. 146-149.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Agenda: Festa Literária Internacional de Paraty 2014



De 30 de Julho a 3 de Agosto decorre, no Rio de Janeiro, a 12.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). 

O evento, que partilha o acrónimo com o FLiP, o pacote de ferramentas linguísticas da Priberam de auxílio à escrita em língua portuguesa, será palco de debates e conferências com vários autores nacionais e internacionais, para além de exposições, oficinas, exibições de filmes e uma homenagem ao escritor brasileiro Millôr Fernandes (1923-2012).

A programação principal da Flip tem tradução simultânea e pode ser vista ao vivo pela internet. Mais informação aqui.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)


Prestamos homenagem ao escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro (Prémio Camões 2008), falecido hoje no Rio de Janeiro, através dos seguintes excertos das suas crónicas, onde é bem visível a relação do autor com a língua portuguesa.

«[...] Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa -- e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
--  Seu filho está doido -- disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. -- Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
-- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.
-- Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.
-- Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
-- O Lello.
-- Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação. [...]»

João Ubaldo Ribeiro, “Memória de livros” in Um brasileiro em Berlim, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1995, pág. 137, via Projeto Releituras [página consultada em 18-07-2014]. 



«A gramática é a mais perfeita das loucuras, sempre inacabada e perplexa, vítima eterna de si mesma e tendo de estar formulada antes de poder ser formulada — especialmente se se acredita que no princípio era o Verbo. Estou estudando gramática e fico pasmo com os milagres de raciocínio empregados para enquadrar em linguagem “objetiva” os fatos misteriosos da língua. Alguns convencem, outros não. Estes podem constituir esforços meritórios, mas se trata de explicações que a gente sente serem meras aproximações de algo no fundo inexprimível, irrotulável, inclassificável, impossível de compreender integralmente. Mas vou estudando, sou ignorante, há que aprender. Meu consolo é que muitas das coisas que me afligem devem afligir vocês também. Ou pelo menos coisas parecidas. [...]»

João Ubaldo Ribeiro, “Questões gramaticais” in Arte e ciência de roubar galinha: crônicas, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1998, pp. 96-100, via Scribd [página consultada em 18-07-2014].






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