A conjugação de grafias anteriores e posteriores ao Acordo Ortográfico (AO) de 1990 num mesmo texto não é caso único na versão online do jornal Público. Esta situação ocorre sobretudo agora que a principal agência noticiosa portuguesa, a Agência Lusa, passou a redigir os seus textos segundo a nova norma ortográfica. Em período de transição, e sem a verificação ortográfica necessária, exemplos como os que se seguem serão frequentes na imprensa escrita (destacados nossos): Ex.1: Reduzir o consumo abusivo de bebidas alcoólicas durante as festas académicas, minimizando os danos associados, é o principal objetivo do projeto "Antes que te Queimes", que compreende ainda ações sobre sexualidade responsável, primeiros socorros e substâncias psicoativas.
Ex.2: O processo deverá, depois, seguir a tramitação normal até ao licenciamento (apresentação do projecto de arquitectura e dos projectos de especialidade e respetiva aprovação), mas a empresa não avança, para já, com prazos relativamente ao início da obra que vai reabilitar o mercado. [...] Mas a Eusébios tinha imposto como condição para assinar a escritura a obtenção da isenção do pagamento dos cerca de 200 mil euros de Imposto Municipal Sobre Transações Onerosas de Imóveis (IMT).
Um problema relacionado com a instrução do pedido de isenção atrasou o processo, que foi deferido pela Direção Geral de Impostos (DGCI) no início de Janeiro. No entanto, José Craveiro considera que “há outras coisas que podem ser feitas, como a reestruturação dos centros de saúde em unidades funcionais e o depurar dos ficheiros médicos, que têm mais pessoas do que aquelas que os censos dizem que existem”. Deu o exemplo da reestruturação feita no centro de saúde de Santa Comba Dão, onde a partir de hoje a Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados passou a funcionar nos dias úteis, aos fins de semana e feriados das 08h00 às 24h00.
Dessa reestruturação faz ainda parte o encerramento do Serviço de Atendimento Permanente (SAP) e a desativação das extensões de Pinheiro de Ázere, Óvoa e São Joaninho, todas com menos de 1500 utentes e que significavam “um grande desperdício de recursos”.
Ex.3: A Atlânticoline tem ainda em aberto o concurso para a escolha do segundo navio para a operação deste ano, que vai assegurar as ligações entre as ilhas açorianas entre 7 de junho e 26 de setembro.
Ex.4: No entanto, a estratégia da Câmara vai além da elaboração do PPS e dos cerca de 9,5 milhões de euros de investimento previstos no programa de ação da Regeneração Urbana, co-financiado em 55 por cento por fundos europeus.
“A obra física e o betão, por si só, não resolvem os problemas todos e é importante um conjunto de ações imateriais”, defendeu, explicando que, neste sentido, a Câmara Municipal conta já com instituições locais como parceiras. [...] O objetivo é “recuperar laços” e “contrariar o “afastamento dos sinienses relativamente ao centro histórico”, o que está em parte relacionado, segundo a autarca, com “um crescimento demasiado rápido” da cidade a partir dos anos 70, aquando do desenvolvimento do Complexo Industrial de Sines.
“Construímos uma cidade à volta, o que apertou o centro histórico, criou novas urbanidades e centros atrativos da população”, explicou.
Os utilizadores da língua que queiram evitar nos seus textos a incoerência ortográfica ilustrada pelos exemplos acima encontram nas ferramentas linguísticas da Priberam vários recursos úteis e fáceis de utilizar. Ciente do período de transição que se atravessa e da ligação que cada utilizador estabelece com a sua língua, a Priberam não tem pretensões de impor uma ou outra ortografia, mas, na liberdade de escolha, a tecnologia FLiP existe para casos como este, na opção com ou sem AO: na versão FLiP 7, no corrector online, no conversor online ou no vocabulário online (estes últimos de acesso gratuito).
 Nos anos 90 do século passado, o Público trouxe-nos esta dupla e as suas trapalhadas. Hoje, a propósito de uma notícia sobre Bill Watterson, o criador de Calvin & Hobbes, a versão online do jornal brinda-nos com uma pequena trapalhada de foro ortográfico (destacado nosso): «A entrevista foi publicada hoje no Cleveland Plain Dealer, jornal da cidade onde Bill Watterson vive, e terá sido a primeira que o autor concedeu a um jornalista em 20 anos, ainda que tenha sido por correio eletrónico.» A presença de uma grafia posterior ao novo ortográfico – eletrónico – só é digna de destaque porque o jornal expôs no seu editorial de 30 de Dezembro de 2009 as razões pelas quais rejeitava a nova ortografia, afirmando que « Vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje. Os nossos colunistas terão total liberdade de escolha, mas a redacção escreverá notícias baseadas em “factos”, sem “espectáculo” mas com “acção”.»
A Agência Lusa passou a redigir os seus textos segundo a nova norma ortográfica, desde o passado dia 30 de Janeiro. Resta saber o que farão agora jornais e revistas que ainda não adoptaram o Acordo Ortográfico de 1990 e que irão difundir os textos noticiosos da Lusa. Será que vão rever todos os textos recebidos à procura das novas grafias e substituí-las pelas antigas? Será que vão colocar uma nota em cada notícia, a avisar os leitores, no caso de reproduzirem os textos sem alteração? Será que vão fazer uma grande trapalhada?
Regresso de férias e vejo que começa a delinear-se uma resposta ao meu pedido de Natal:
"A pequena equipa formada pelos professores catedráticos Maria Helena da Rocha Pereira e Aníbal Pinto de Castro (e por um seu assistente, Marcelo Vieira) já concluíram a revisão definitiva das palavras que começam por A, B, C, D e E. Faltam todas as outras letras, mas Pinto de Castro diz que o trabalho entrou numa fase de grande intensidade e acredita que o novo Vocabulário Resumido da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa vai estar concluído dentro de um mês, altura em que será entregue à Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) para ser impresso."
in Expresso de 09-01-2010, suplemento "Primeiro Caderno", p. 26
Desculpa escrever-te tão em cima da hora, sobretudo nesta época já de si tão atarefada. Sei, por experiência profissional, que não é fácil responder a tantas cartas, reais e virtuais, que chegam diariamente, das mais diversas proveniências. Não imagino sequer a confusão linguística que vai por esse Pólo Norte. O meu pedido é por isso muito curto: gostaria de saber o que fazer com Acordo Ortográfico (AO) de 1990 em Portugal...
Com o Acordo Ortográfico (AO) de 1990 já em vigor no Brasil, a comissão de lexicologia e lexicografia da Academia Brasileira de Letras (ABL) elaborou uma nota explicativa das orientações e opções tomadas na 5ª edição do Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009), onde se encontram os quatro princípios metodológicos seguidos (p. LI):
a) respeitar a lição do texto do Acordo;
b) estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo;
c) acompanhar o espírito simplificador do texto do Acordo;
d) preservar a tradição ortográfica refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das omissões do texto do Acordo.
À partida, a instanciação dos princípios acima não deixa antever o impacto das opções tomadas pela ABL, que só começa a desenhar-se quando são apresentadas as principais medidas tomadas pela comissão (p. LII). Mas só após exaustiva e fastidiosa consulta do VOLP (cuja versão electrónica on-line ainda não se encontra disponível) é que se percebe que a alínea c) acima transcrita pretende justificar interpretações que vão além do que diz o texto legal do AO e que a alínea d) é muitas vezes descurada pelas opções tomadas, comprometendo-se assim a esperada unificação ortográfica.
Algumas das opções e respectivas justificações do VOLP são particularmente intrigantes, como as que se seguem.
- registam-se palavras com formas divergentes das referidas no AO (ex.: grafa-se primo-infeção no AO mas primoinfeção no VOLP; co-herdeiro no AO mas coerdeiro no VOLP – cf. Base XVI), contrariando-se assim exemplos e regras claramente apresentados no texto legal;
- eliminam-se variantes não referidas no AO (ex.: benfeito surge no texto do AO, daí ter-se eliminado bem-feito no VOLP), mas mantêm-se outras no mesmo contexto (ex.: benquerença surge no texto do AO, mas é mantida a forma bem-querença no VOLP);
- elimina-se simplesmente o hífen em todas as palavras que contêm "formas de ligação", sem que haja explicitação inequívoca do que é entendido por “forma de ligação” ou da solução a tomar após a remoção do hífen (ex.: disse me disse, esmeralda do brasil, toma lá dá cá, tomara que caia mas pauapicar, empauapicar, flordelisado);
- abrem-se excepções às decisões ao uso do hífen nos casos acima, com "formas de ligação", nomeadamente para os gentílicos como rio-grandense-do-norte, mas não para os gentílicos indígenas como carajá do norte;
- fazem-se distinções entre palavras aglutinadas, palavras hifenizadas e locuções que escapam aos critérios definidos e são difíceis de compreender (ex.: o VOLP regista judeo-árabe mas judeo aramaico; regista judeu-cristão mas judeu cristianismo; regista francomação mas franco-maçom);
- hifenizam-se os termos compostos formados por elementos repetidos de origem onomatopaica mas escrevem-se aglutinados se forem de outra origem(ex.: tam-tam "tambor" versus tantã "pessoa desequilibrada"; o cuco "ave" foi cu-co até aos aditamentos, onde se descobriu que afinal não era bem uma onomatopeia, senão na origem do latim; já o fru-fru parece continuar hifenizado, mesmo tendo origem na palavra francesa froufrou);
- hifenizam-se os termos pertencentes às áreas da botânica ou da zoologia (conforme a Base XV, 3º) que designam animais, plantas, flores, frutos, raízes e sementes mas escrevem-se sem hífen sempre que tiverem outros significados diferentes desses (ex.: flor-de-lis "lírio-roxo" versus flor de lis "emblema da realeza francesa" que representa essa flor; bálsamo-do-peru "espécie de árvore" versus bálsamo do peru "líquido resinado obtido do bálsamo-do-peru");
- contraria-se o disposto na Base XVI, 1.º, alínea b), segundo a qual o prefixo re- (à semelhança do que sucede com outros prefixos terminados em -e, como entre- ou sobre-) deverá ser seguido de hífen quando o elemento seguinte começar por -e e o VOLP regista, por exemplo, reentrar. O texto legal do AO é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal em que se inicia o elemento seguinte (ex.: anti-ibérico, contra-almirante, auto-observação).
- elimina-se o uso do hífen nos compostos com quase- ou não- (ex.: não metal; quase delito), quando o AO em nenhum momento o faz.
Será que a Academia das Ciências de Lisboa, cujo vocabulário é esperado até ao final deste ano, vai interpretar o AO da mesma maneira?
Falar do Acordo Ortográfico (AO) de 1990 não implica falar apenas de lusofonia. Nem do projecto de uma "ortografia unificada de língua portuguesa", como menciona o texto legal. Implica falar de polémica, de aceitação e rejeição, de petições contra e a favor e da falta de uma política linguística coesa, pelo menos em Portugal. Tem sido assim desde antes de 1990 e não parece que este cenário se vá alterar, mesmo após a ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa por parte do Brasil (2004), Cabo Verde (2006), São Tomé e Príncipe (2006), Portugal (2009) e, a partir desta semana, Timor Leste.
Nos últimos tempos, falar do AO implica também falar de erratas, de listas de correcções, de ajustes, de aditamentos e de actualizações. Porquê? Porque os produtos de língua portuguesa entretanto disponibilizados no Brasil e em Portugal reflectem o facto de (i) o texto legal do AO ser ambíguo, incongruente e lacunar em vários pontos, gerando por isso interpretações divergentes, (ii) não existir um vocabulário comum atempadamente publicado que tenha colmatado essas lacunas e divergências, (iii) este ser um período de transição. Já aqui e aqui se tinha alertado para estes factos. Se restam dúvidas acerca das dificuldades da aplicação do AO, basta ver como os dicionários e os vocabulários entretanto publicados se distanciam na interpretação e na aplicação do texto legal, comprometendo assim a tão almejada unidade ortográfica.
A Priberam tem acompanhado atentamente todo o processo relativo ao AO, no sentido de não tomar decisões precipitadas e de produzir ferramentas que correspondam qualitativamente às expectativas dos utilizadores, não só em Portugal, mas também no Brasil e em outros países da CPLP. Pelo facto de a Priberam ter adquirido uma grande responsabilidade devido aos produtos que desenvolve, às marcas a que se tem associado e ao número de utilizadores que recorrem aos seus produtos e serviços, é exigido aos seus correctores um alto grau de qualidade e a resolução pronta das dúvidas ortográficas (e não a criação de mais áreas de dúvida ou hesitação).
Tendo em conta este contexto, a Priberam sentiu necessidade de definir linhas gerais explícitas e fundamentar linguisticamente as suas opções nos pontos em que o AO é ambíguo, incongruente e lacunar, tornando-as públicas nos critérios do FLiP relativamente ao Acordo Ortográfico de 1990, disponibilizados on-line logo desde o lançamento do FLiP 7.
Todavia, neste período de transição, dificilmente algum produto de língua portuguesa estará isento de fazer alterações ou actualizações, e os produtos da Priberam não constituem excepção. Veja-se, aliás, como a própria Academia Brasileira de Letras teve rapidamente de proceder a correcções ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009) no seu encarte de correcções e aditamentos à 5ª edição. Isto depois de ter publicado a edição segundo o AO do Dicionário escolar da língua portuguesa, que teve de sofrer ajustes numa 2.ª edição, a qual, por sua vez, ainda revela divergências relativamente ao referido vocabulário.
Nota1: A expressão "entidades nomeadas" é a tradução proposta pela Linguateca para a expressão inglesa named entities, termo que designa "entidades com nome próprio" (ex.: Reino Unido, Luís de Camões, ministro dos Negócios Estrangeiros, etc.).
 Alguém precisa dizer ao Grump e ao Vândalo desta tirinha que o Novo Corretor Aurélio 2.0 já se encontra à venda no Brasil. Com ele, e com o FLiP 7 em Portugal, fica um pouco mais fácil escrever segundo as novas regras ortográficas do português. P.S.: Está sol? O calor convida a uma ida à praia? O tema "acordo ortográfico" não desperta interesse? Não faz mal, justifica-se na mesma uma visita ao blogue do Orlandeli, de onde foi retirada a tira acima.
|
|
|