(José Eduardo Agualusa, © Daniel Rocha)
«Sou um angolano de origem portuguesa – o que faz de mim quase um brasileiro, e há longos anos que me acho no papel de passageiro em trânsito pelos diferentes territórios onde prospera a nossa língua. Esta deriva, quase sempre feliz, tem contribuído para aumentar o meu interesse pela vida das palavras. [...]
Quanto mais me apaixono pela nossa língua, e mais me aproximo dela, melhor a vejo, inteira, na sua diversidade. A língua segue sendo uma só, embora rio de muitas águas, a cada dia mais largo e mais profundo.
Nunca como hoje houve tanta circulação de pessoas, de ideias, de palavras, no espaço da nossa língua. Nunca estivemos tão próximos como agora. São portugueses que emigram para Angola ou para o Brasil. Brasileiros que, tendo vivido longos anos em Portugal, regressam a casa. Brasileiros, por outro lado, a fixarem-se em Angola. Todo este trânsito vem democratizando ainda mais a língua comum. Não existe hoje um centro de poder. Portugal recebe tanto quanto dá. Jovens portugueses falam como angolanos. Angolanos apropriam-se de termos brasileiros. Muitas vezes não se trata sequer de importação, mas de regressos.
O que eu amo, pois, é este idioma democrático, plurinacional, que a todos pertence e a todos igualmente se entrega e enriquece. Esta nossa Língua Geral.»
José Eduardo Agualusa, “Esta nossa Língua Geral” in Jornal de Letras, n.º 1082, 21-03 a 03-04 de 2012, pp. 8-9.
(Mia Couto, © Daniel Rocha)
«Estava já eu predisposto a escrever mais uma crónica quando recebo a ordem: não se pode inventar palavra. Não sou homem de argumento e, por isso, me deixei. Siga-se o código e calendário das palavras, a gramatical e dicionárica língua. Mas ainda, a ordem era perguntosa: "já não há respeito pela língua-materna?" [...]
Estraga-se a decência, o puro sangue do idioma. E porquê? Por causa dessas contribuições dispérsicas que chegam à língua sem atestado nem guia de marcha. Devia exigir-se, à entrada da língua um boletim de inspecção. E montavam-se postos de controlo, vigilanciosos.
Se forem criados tais postos eu mesmo me voluntario. Uma espécie de milícia da língua, com braçadeira, a mandar parar falantes e escreventes. A revistar-lhes o vocabulário, a inspeccionar-lhes o saco da gramática.
- Vem de onde essa palavra?
E mesmo antes da resposta, eu, arrogancioso:
- Não pode passar. Deixa ficar tudo aqui no posto.
Os queixosos, nas cartas dos leitores, reclamando. E eu, abusando dos abusos, rindo-me deles. Mas não me divertindo de alma inteira, não. Porque a vida é uma grande fábrica de imagineiros e há muita estrada para poucos postos vigilentos. [...]»
Mia Couto, “Escrevências desinventosas”, in Cronicando (Lisboa: Caminho, col. «Uma terra sem amos», n.º 52, 1991, pp. 167-169).

(Ondjaki, © Rui Gaudêncio)
«[...] depois das tempestades todas de ser para escrever, de escutar para recontar, de ir buscar no passado umas coisas tão lindas que não eram de ser estivadas, mas acariciadas – eram memórias de outras épocas que me chegavam pela voz da avó Agnette, e as lições da escola, e os autores que andavam a sonhar um [sic] língua de estrear novos ritmos, mais a máquina de escrever da minha mãe, e os rumores das estigas faladas, arremessadas contra a parede da nossa infância cheia de curvas – ritmo e cadências que haveria de ter que lembrar para pisar em frente na vida...
hoje que te vejo, senhora dona língua portuguesa, esse teu nome é plural…; de ti fizemos também corpo criativo – “língua desportuguesa”… – e com o carinho que te temos, se fosses uma velhinha acariciava-te as mãos e beijava-te os olhos mas, ah!, se habitasses o corpo de uma mulher madura dessas a que o sabor se pressente de olhos quietos, então confesso que a noite seria de amor. estranho amor. profundo amor.
depois dos contornos todos da palavra “travessia”, durante todas as “madrugadas”, entre “varanda e arejamento”, pisando “solidões”, tecendo “falésias” fecho os olhos e sorrio ao pensar que eu nasceria perto do teu corpo – outra e outra vez...»
Ondjaki, “Nome plural” in Jornal de Letras, n.º 1082, 21-03 a 03-04 de 2012, p. 14.
Aquando da apresentação do seu último livro, Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno, o humorista português Ricardo Araújo Pereira descreve um certo dicionário (perto do minuto 19, no vídeo abaixo):
«[...] Há um dicionário on-line que tem... A gente faz uma pesquisa e ele devolve o significado da palavra. A gente põe a palavra e ele devolve o significado da palavra e em baixo tem um gráfico com o número de vezes que a palavra foi pesquisada nos últimos meses. Quando a gente fez o programa, punha-se "esmiuçar" e aparecia 0 vezes nos últimos 24 meses. 4000 vezes na última semana! [...]»
Para quem teve dificuldade em identificar o dicionário, aqui fica uma imagem esclarecedora da funcionalidade "Histórico de pesquisas" do Dicionário Priberam ao serviço do humor:
«Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.»
Visão, 23 de Novembro de 2012
As palavras acima são do escritor português António Lobo Antunes, a quem é dedicada a iniciativa Dia António Lobo Antunes, que se realiza no próximo domingo, dia 27, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
O evento, que é de entrada livre, irá reunir amigos e estudiosos da obra do autor. Mais informações sobre o programa, aqui.
Subordinado ao tema “Língua Portuguesa Global – Internacionalização, Ciência e Inovação”, o evento irá debruçar-se sobre a afirmação do português em organismos internacionais, na divulgação científica e na comunicação digital.
Trata-se de uma iniciativa do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, em parceria com o Instituto Camões, a CPLP e algumas universidades portuguesas, que irá reunir académicos e responsáveis políticos para debater e avaliar a aplicação do plano aprovado na conferência anterior, realizada no Brasil em 2010.
Para mais informações, consultar o programa disponível aqui.
Imagem retirada do filme José e Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.
“Não me lembro, desde que ando neste ofício, de ter dado tanto uso aos dicionários. E não é porque as dúvidas, agora, sejam mais frequentes ou mais incómodas que antes: o que sucede é que se vem tornando exigentíssima a necessidade de estar perto das minhas palavras.”
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998, pp. 32-33.
“É justa a alegria dos lexicólogos e dos editores quando, ao som dos tambores e das trombetas da publicidade, aparecem a anunciar-nos a entrada de uns quantos milhares de palavras novas nos seus dicionários. Com o andar do tempo, a língua foi perdendo e ganhando, tornou-se, em cada dia que passou, simultaneamente mais rica e mais pobre: as palavras velhas, cansadas, fora de uso, resistiram mal à agitação frenética das palavras recém-chegadas, e acabaram por cair numa espécie de limbo onde ficam à espera da morte definitiva ou, na melhor hipótese, do toque da varinha mágica de um erudito obsessivo ou de um curioso ocasional, que lhe darão ainda um lampejo breve de vida, um suplemento de precária existência, uma derradeira esperança. O dicionário, imagem ordenada do mundo, constrói-se e desenvolve-se sobre palavras que viveram uma vida plena, que depois envelheceram e definharam, primeiro geradas, depois geradoras, como o foram os homens e as mulheres que as fizeram e de que iriam ser, por sua vez, e ao mesmo tempo, senhores e servos.”
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário V, 4.ª ed., Lisboa: Caminho, 1998, p. 35.
O evento, organizado pela Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa da CPLP, propõe-se discutir o papel das sociedades civis na promoção, divulgação e projecção da língua portuguesa.
Para mais informações, consultar o programa disponível aqui.
Hoje a Priberam comemora o seu 24.º aniversário!
Em mais um ano de trabalho, entre outras actividades, a Priberam reformulou alguns dos seus produtos e serviços para facilitar o acesso por meio de dispositivos móveis, como o LegiX para iPad ou o novo site do Dicionário Priberam para tablets e smartphones.
Venham daí essas prolfaças! Prolfaças para nós mas também para todos aqueles (clientes, parceiros, admiradores) que nos têm acompanhado e que, com os seus comentários, sugestões ou críticas, têm contribuído para a actualização e melhoramento dos nossos produtos e serviços.
Já está disponível a nova versão do site do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Com um visual mais moderno e desafogado para facilitar a leitura e a compreensão do dicionário, inclui também informação adicional como, por exemplo, a visualização de anagramas, palavras relacionadas ou divisão silábica.
Ao visual renovado alia-se a compatibilidade com dispositivos móveis, como tablets e smartphones, sobretudo porque tem vindo a registar-se um aumento claro da procura a partir desses dispositivos.
Dado que a maioria das consultas é feita de fora de Portugal, o dicionário foi também optimizado para corresponder melhor a esta sua vocação global, recorrendo a servidores localizados em diferentes países por forma a melhorar a velocidade de carregamento das páginas.
Prestamos homenagem ao escritor português Urbano Tavares Rodrigues, falecido hoje em Lisboa:
“– E que sentido tem a nossa vida?, que responsabilidade não será amanhã a nossa se ficarmos quietinhos a assistir ao descalabro, nesta grande prisão de gente bem comportada, que é, ao mesmo tempo, o palco de uma peça de Ionesco, onde se tomam a sério as maiores imbecilidades e o bem se confunde a todo o momento com a injustiça, com a hipocrisia?!”
Urbano Tavares Rodrigues, Terra Ocupada, Livraria Bertrand, 1964
Amanhã tem início a terceira edição da Lisbon Machine Learning School (LxMLS), escola de Verão intensiva que inclui aulas, laboratórios e palestras sobre aprendizagem automática.
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