.
Entrar | Contactos | Dicionário | FLiP.pt | LegiX.pt | Blogue | Loja

domingo, 16 de Novembro de 2014

Se Saramago escrevesse dicionários...

Imagem retirada do filme José e Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.

No dia do seu aniversário, citamos, mais uma vez, um consulente atento de dicionários:

«Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir [...] é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos. [...] 
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. [...] temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre.
E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso. 
O Sorriso (este, com maiúscula) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.
Mas eu falava de gente, de nós, que fazemos a aprendizagem do sorriso e dos sorrisos ao longo da vida própria e das alheias. [...]
A tudo isto é que eu chamo sabedoria. [...]
Dir-me-ão que não cabe tanto no sorriso. Eu digo que cabe. Soube-o a noite passada, quando foi ele a única resposta para a insónia e para os monstros do pesadelo nascido no sono onde o corpo acabou por deslizar, cansado e aflito. Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.»

José Saramago, «O sorriso», Deste Mundo e do Outro, 5.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1997


quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Manoel de Barros (1916-2014)


Homenageamos o poeta brasileiro Manoel de Barros (Prémio Jabuti 1989), hoje falecido:

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos 
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de 
um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros, O livro das ignorãças, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.17. 

quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

Agenda: Dia(s) do Desassossego



O que partilham José Saramago e Fernando Pessoa, além dos óculos, da nacionalidade, da escrita, da língua portuguesa ou do mês de Novembro (que viu nascer Saramago e morrer Pessoa)? Partilham o desassossego, nome da obra incontornável Livro do Desassossego de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa, e sentimento que habitava Saramago, pois o escritor vivia desassossegado e escrevia para desassossegar. De 15 a 17 deste mês, Saramago e Pessoa partilham também o Dia do Desassossego.

O Dia do Desassossego é uma iniciativa que a Fundação José Saramago tem levado a cabo nas ruas de Lisboa desde 2012, promovendo a leitura de textos de Saramago e de outros autores portugueses. Este ano, o programa conta com a parceria da Casa Fernando Pessoa e apela aos leitores para que se deixem desassossegar pela leitura, seja pela participação em leituras públicas, na troca de livros ou em concertos. Mais informação aqui.

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Priberam Machine Learning Lunch Seminars (6.ª série)



Amanhã, dia 28, tem início a sexta temporada dos Priberam Machine Learning Seminars. Pelo sexto ano consecutivo, a Priberam patrocina estes encontros informais que promovem a divulgação e o debate entre a academia e a indústria em diversas áreas relacionadas com a aprendizagem automática (machine learning, em inglês).  

O primeiro seminário estará a cargo de Michael Unser, professor e director do Laboratório de Imagem Biomédica, da Escola Politécnica Federal de Lausana.

A periodicidade dos seminários mantém-se quinzenal, à terça-feira, das 13h às 14h, no campus da Alameda do Instituto Superior Técnico. Os seminários estão abertos a todos os que queiram participar (não é necessária inscrição) e disponibilizam uma refeição grátis aos participantes. Mais informação aqui (em inglês).

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Agenda: New Portuguese Writers



A obra dos escritores portugueses Dulce Maria Cardoso e Afonso Cruz vai estar em destaque nos próximos dias em Nova Iorque, no âmbito do New Portuguese Writers, iniciativa do Arte Institute

Estão previstas leituras interpretadas de textos dos dois autores no sábado, dia 25, no Metropolitan Museum of Art, e conferências de ambos os escritores na segunda-feira, dia 27, no King Juan Carlos Center.

Mais informação aqui (em português) e aqui (em inglês).

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Agenda: I Congresso Internacional do Círculo Literário Agustina Bessa-Luís


Decorre hoje e amanhã, na Fundação Calouste Gulbenkian, o primeiro congresso internacional do círculo literário Agustina Bessa-Luís, subordinado ao tema “Ética e Política na obra de Agustina Bessa-Luís”. 

A entrada é livre e conta com a participação de conferencistas que incluem escritores e estudiosos da obra da escritora portuguesa. Mais informações aqui.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Aniversário Priberam: 25 anos!


A Priberam celebra hoje o seu 25.º aniversário!

Desde 25 de Setembro de 1989, a Priberam tem vindo a fazer história nas áreas da linguística computacional, das ferramentas de informação jurídica, dos motores de pesquisa e da saúde. Há 25 anos que a Priberam tem arrecadado prémios e distinções pela sua capacidade de inovação e pelos seus serviços e produtos, como o FLiP, o LegiX e o Priberam Search.


A Priberam está de parabéns pelos seus 25 anos de existência, mas as prolfaças vão também para todos aqueles (clientes, parceiros, admiradores) que nos têm acompanhado e que têm contribuído para o nosso crescimento e para o melhoramento dos nossos produtos e serviços.

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Agenda: XXII Colóquio da Lusofonia



No próximo dia 25 tem início o XXII Colóquio da Lusofonia, na Casa Municipal da Cultura, em Seia.

As sessões são abertas ao público e irão debater temas como lusofonia, literatura, ensino, formação, língua portuguesa no mundo e estudos de tradução, nomeadamente de e para português.

Mais informações, aqui.

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

Eduardo White (1963-2014)



Prestamos homenagem ao poeta moçambicano Eduardo White (Prémio Glória de Sant'Anna 2013), falecido ontem em Maputo, com o poema “O que vocês não sabem e nem imaginam”: 


Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações
[Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo,
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.

Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos.

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Ariano Suassuna (1927-2014)



Homenageamos o escritor brasileiro Ariano Suassuna, recentemente falecido, com o excerto da sua obra-prima teatral em que uma das personagens não esconde seu espanto perante um Cristo negro:


«JOÃO GRILO
Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo, sinto perfeitamente que estou diante de uma grande figura. Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante, mas se não me engano aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel.

MANUEL
Foi isso mesmo, João. Esse é um de meus nomes, mas você pode me chamar também de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele gosta de me chamar Manuel ou Emanuel, porque pensa que assim pode se persuadir de que sou somente homem. Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus.

JOÃO GRILO
Jesus?

MANUEL
Sim.

JOÃO GRILO
Mas, espere, o senhor é que é Jesus?

MANUEL
Sou.

JOÃO GRILO
Aquele Jesus a quem chamavam Cristo?

MANUEL
A quem chamavam, não, que era Cristo. Sou, por quê?

JOÃO GRILO
Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado.

BISPO
Cale-se, atrevido.

MANUEL
Cale-se você. Com que autoridade está repreendendo os outros? Você foi um bispo indigno de minha Igreja, mundano, autoritário, soberbo. Seu tempo já passou. Muita oportunidade teve de exercer sua autoridade, santificando-se através dela. Sua obrigação era ser humilde porque quanto mais alta é a função, mais generosidade e virtude requer. Que direito tem você de repreender João porque falou comigo com certa intimidade? João foi um pobre em vida e provou sua sinceridade exibindo seu pensamento. Você estava mais espantado do que ele e escondeu essa admiração por prudência mundana. O tempo da mentira já passou.

JOÃO GRILO
Muito bem. Falou pouco mas falou bonito. A cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto.

MANUEL
Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?» 

Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida, 11.ª ed., Rio de Janeiro: Agir Editora, 16975, pp. 146-149.






Priberam.pt
.