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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Corsino Fortes (1933-2015)

(Corsino Fortes, © Anne Holmes)

Prestamos homenagem ao poeta cabo-verdiano Corsino Fortes, hoje falecido, com este seu poema:

Do nó de ser ao ónus de crescer
Do dia ao diálogo
Da promoção à substância
Romperam-se
As artérias
Em teu património
Agora povo agora pulso
Agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
Noite
Noite alta
E o batuque não pára
Em nossas ancas
AGORA POVO AGORA 

Corsino Fortes, Pão & Fonema, Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980, p. 45

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Enigma de sexta-feira

Os consulentes mais atentos do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) sabem que algumas palavras do dicionário são ilustradas com fotografias (ex.: almadia, barrosão, capulana, jambo, limpa-garrafas, mirabe, quinoa, radiobaliza, vidrão, zootrópio...). O recurso a imagens ilustrativas não pretende sobrepor-se à definição lexicográfica, mas antes complementá-la e contribuir para uma identificação mais imediata do que está a ser definido. Presentemente, o DPLP contém mais de 2100 fotografias. 

O parágrafo acima serve de introdução à seguinte pergunta: como é que se justifica que a pesquisa pela palavra “Priberam”, na pesquisa por imagens do Google, retorne várias fotografias relativas à empresa Priberam, mas apenas uma única fotografia das que estão presentes nos verbetes do DPLP? E que essa única fotografia seja, hum..., esta?

Quem souber a resposta, faça o favor de nos elucidar. :)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Agenda: V Encontro de Escritores Lusófonos


A V Bienal de Culturas Lusófonas, que decorre em Odivelas até ao final deste mês, celebra a diversidade e a multiculturalidade nas artes plásticas, na dança, na música, no teatro e na literatura dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

É nesse âmbito que se realiza o V Encontro de Escritores Lusófonos, de 19 a 21 de Maio, evento que reúne autores angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, portugueses e são-tomenses, que irão participar de debates e de lançamento de livros.

Mais informações sobre o programa detalhado aqui.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Aniversário da “Palavra do dia”

«Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.»
Almada Negreiros in A Invenção do Dia Claro, 1921.


Não faz 100 anos, mas faz hoje 6 anos que a “Palavra do dia” surge destacada na página do Dicionário Priberam, sendo também publicitada diariamente no Facebook, no Twitter e no Google+.

As palavras do dia são, geralmente, palavras raras, curiosas e pouco consultadas às quais se pretende dar algum destaque, nem que seja por um dia. A imagem abaixo reúne algumas palavras do dia do Dicionário Priberam dos últimos 6 anos (clicar na imagem para aumentar):


terça-feira, 7 de abril de 2015

Agenda: Minha língua, minha pátria


De 10 a 15 de Abril, decorre em São Paulo, no Brasil, o evento Minha pátria, minha língua.

Promovido pela Livraria Cultura e pelo jornal português Público, o evento é de entrada gratuita e vai reunir escritores brasileiros e portugueses para dar a conhecer os novos nomes da literatura de língua portuguesa e para debater a obra de autores consagrados, como Fernando Pessoa e Eça de Queirós. 

Informação sobre programação, participantes, local e contactos pode ser consultada aqui.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Agenda: Contos inéditos de Fernando Pessoa


«A noite estava ilegível. Não se via céu nem terra — só escuridão. Nem mesmo podia haver pelos sentidos a convicção de que havia céu e terra; a escuridão tirava-lhes os lugares. Só havia a escuridão, sem forma, lugar ou fundo.»

Assim se inicia A Estrada do Esquecimento, conto que dá nome à colectânea que reúne 20 contos inéditos de Fernando Pessoa, publicados pela Assírio & Alvim.

A apresentação da obra ocorre a 9 de Abril, às 19h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

Mais informação aqui.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira (1908-2015)

(Manoel de Oliveira © Rui Duarte Silva)

Faleceu hoje Manoel de Oliveira, realizador português que nos últimos anos era frequentemente designado como “o mais velho realizador do mundo em actividade”. E actividade é realmente a palavra certa, como já referia o jornal norte-americano The New York Times em 2008, para alguém que realizou mais de cinco dezenas de filmes, o primeiro aos 22 anos e o último aos 105.

«Quando falo de teatro, é no sentido da representação da cena. Tudo o que não é vida é teatro, mesmo um quadro. O teatro é a síntese de todas as artes. O cinema recebeu esta herança e, pelas suas possibilidades, enriqueceu-a. O sentido que dou a teatro no cinema é o de representação da vida. Graças ao cinema tudo pode ser representado.»
Manoel de Oliveira in Antoine de Baecque, Jacques Parsi, Conversas com Manoel de Oliveira, Porto: Campo de Letras, 1999, p. 70

Prestamos homenagem ao mestre do cinema português deixando aqui a ligação para a sua primeira obra, Douro, Faina Fluvial, um curto documentário sobre o rio Douro e a cidade do Porto:

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder (1930-2015)

É através da voz do próprio, e com o seu característico sotaque madeirense, que prestamos homenagem ao poeta português Herberto Helder (Prémio Pessoa 1994), falecido ontem.





Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisas puras.
Renascia.
                                                                                             

sexta-feira, 20 de março de 2015

Agenda: Dia Mundial da Poesia

(Foto de uma poemografia de Heduardo Kiesse, autor de Paradoxos, © Cláudia Pinto, Lisboa, 2014)

«Eu tenho uma definição que poesia é a armação de palavras com um canto dentro», diz o poeta brasileiro Manoel de Barros (1916-2014), no minuto 10:33 do documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar. Cada um terá a sua definição de poesia, mas amanhã ela é celebrada em várias partes do mundo, através do Dia Mundial da Poesia, uma iniciativa da UNESCO.

Em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa promove leituras em cafés, um concerto e uma mesa-redonda sobre novos poetas e novas poéticas. Mais informações aqui. O Centro Cultural de Belém dedica o evento Maratona de Leitura ao poeta Cesário Verde, promove leituras comentadas de poemas de Ernesto Cardenal, Octavio Paz, Pablo Neruda, Vinícius de Morais e Manoel de Barros e convida poetas portugueses contemporâneos a lerem poemas seus ou de outros. Mais informações aqui. No Teatro Nacional D. Maria II serão declamados poemas de Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Mais informações aqui.

No Porto, os Jardins do Palácio de Cristal acolhem a celebração da vida e obra da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen. Mais informações aqui.

Em Lisboa, no Porto, em qualquer parte de Portugal ou do mundo, onde quer que estejam, poesiem-se!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Dia Internacional da Língua Materna



Há já quinze anos que a UNESCO celebra o Dia Internacional da Língua Materna no dia 21 de Fevereiro, no intuito de promover a diversidade linguística e cultural.

Para comemorar essa data, deixamos à reflexão a crónica “A língua que nos constrói”, do escritor José Eduardo Agualusa:

«Não há como a brutal aspereza do alemão quando o que se pretende é intimidar alguém. Experimente, por exemplo, gritar "Macht es Ihnen etwas aus, wenn ich rauche", enquanto arranha o ar com os punhos, e vai ver que o efeito é aterrador. A frase em causa, no entanto, significa simplesmente «Importa-se que eu fume?». Desconfio que pouca gente teria levado Adolfo Hitler a sério, com aquele bigode ridículo, a franjinha tenaz, a miserável figura de carteirista sem sorte, se ele se exprimisse no repousado português do Alentejo, na cantoria afável dos napolitanos ou na alegre geringonça dos ciganos espanhóis. Porém, sempre que vejo imagens do homenzinho, aos gritos, no esforço de cuspir arame farpado, compreendo o vasto terror que inspirou.

Em francês, pelo contrário, é possível dizer quase tudo, inclusive obscenidades, como se fosse uma declaração de amor. Não por acaso preferimos nomear na língua de Baudelaire determinados utensílios, como retrete (de “retraite”, retirada), ou cotonete (do francês “cottoner”, forrar com algodão), certamente porque, de alguma forma, isso parece conferir-lhes uma dignidade que a sua função desmente. “Escargots”, outro exemplo, não são caracóis. Os caracóis comem-se nas tascas rudes dos bairros operários, com palmadas nas costas, gargalhadas, vinho derramado sobre a mesa (de plástico). Já o “escargot” supõe toalhas de linho, copos de cristal, velas altas em candelabros de prata, sussurros, o tédio da boa educação.

E o espanhol? Quando era criança, acreditava que fosse uma língua inventada pelos palhaços. Talvez porque os palhaços da minha infância fossem invariavelmente de origem espanhola, talvez porque o espanhol me parecesse uma forma desastrada de falar português. Hoje, continuo a acreditar que o espírito festivo dos espanhóis — uma cortina de melancolia separa Portugal da península — se deve ao uso da língua.

Ao sol dos trópicos, em África e no Brasil, a língua portuguesa floresceu. Vale a pena lembrar, a propósito, alguns versos da poetisa moçambicana Manuela de Sousa Lobo: «Alguém falou-me dos esquilos e das zebras / que também que já andam falar português / talvez que estória de mentiroso ou poeta / mas até que ia ser bom / conhecer nossa língua florestando-se às riscas nos morfemas / pastando devagarinho com a cauda felpuda se abanando / Chei! Nem nunca vi / advérbios no capim nos meus 27 anos.” Nos países onde se fala português ficou sempre, no entanto, uma sombra da melancolia lusitana, o que explica a morna, o chorinho, o culto particularíssimo da saudade.

Nós criamos as línguas e depois elas recriam-nos a nós. Escritores como o brasileiro Guimarães Rosa ou o moçambicano Mia Couto tornaram-se conhecidos como inventores de palavras. Raramente, porém, as palavras criadas por um escritor ganham vida real, ou seja, alcançam a linguagem do povo. As palavras não têm autor.

Conheço no entanto um brasileiro que se orgulha de ter dado nome a um objecto — o que seria realmente vulgar —, mas a um povo. Um povo inteiro. Gustavo, o meu amigo, é operador de câmara. Há alguns anos acompanhou uma pequena equipa numa expedição à floresta da Amazónia. Numa zona remota da floresta descobriram uma tribo indígena até então completamente desconhecida. Os índios receberam-nos com manifestações de júbilo e deslumbramento. Afeiçoaram-se sobretudo ao meu amigo, carioca de Copacabana, surfista, excelente figura. Gustavo odiava a curiosidade dos índios. Afastava aos gritos os bandos de crianças que teimavam em investigar os seus pertences, fascinados com a câmara, as lentes, as luzes: «Tira a mão daí! Tira a mão daí!» Era isto o dia inteiro. Os índios não se incomodavam. «Tira a mão daí!», gritava o Gustavo, e eles riam-se, ensaiavam carícias, voltavam a enfiar as mãos nas mochilas. A equipa foi-se embora, e alguns meses depois um grupo de antropólogos chegou ao local. Gustavo tem a certeza que os índios receberam a delegação, efusivamente, com a única frase que sabiam em português. Os antropólogos acharam, provavelmente, que era uma afirmação identitária. O facto é que a tribo é conhecida hoje entre os indigenistas por este estranho nome — Txiramãdaí.»      

José Eduardo Agualusa, “A língua que nos constrói” in A substância do amor e outras crónicas, 3.ª edição, Lisboa: D. Quixote, 2010, pp. 129-132.






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