Comemora-se hoje o centenário do nascimento de José Saramago (1922-2010), o escritor português para quem o ideal de vida era ser árvore: “A árvore está ali, alimenta-se directamente do chão, da terra, cresce, abre-se, dá flores se é árvore para dar flores, ou frutos se é ... E vive o tempo que tenha que viver.” As celebrações do centenário de Saramago incluem várias iniciativas em Portugal e no estrangeiro, levadas a cabo por diversas entidades. Em particular, o programa do Centenário de Saramago da Fundação José Saramago incide em quatro eixos, biografia, leitura, publicações e reuniões académicas. A programação está disponível aqui.
Imagem retirada do filme José e Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.
No dia do seu aniversário, citamos, mais uma vez, um consulente atento de dicionários:
«Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir [...] é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos. [...]
O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
Não há dois sorrisos iguais. [...] temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre.
E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.
O Sorriso (este, com maiúscula) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso.
Mas eu falava de gente, de nós, que fazemos a aprendizagem do sorriso e dos sorrisos ao longo da vida própria e das alheias. [...]
A tudo isto é que eu chamo sabedoria. [...]
Dir-me-ão que não cabe tanto no sorriso. Eu digo que cabe. Soube-o a noite passada, quando foi ele a única resposta para a insónia e para os monstros do pesadelo nascido no sono onde o corpo acabou por deslizar, cansado e aflito. Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.»
José Saramago, «O sorriso», Deste Mundo e do Outro, 5.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 1997
Imagem retirada do filme José e Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.
“Não me lembro, desde que ando neste ofício, de ter dado tanto uso aos dicionários. E não é porque as dúvidas, agora, sejam mais frequentes ou mais incómodas que antes: o que sucede é que se vem tornando exigentíssima a necessidade de estar perto das minhas palavras.”
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998, pp. 32-33.
“É justa a alegria dos lexicólogos e dos editores quando, ao som dos tambores e das trombetas da publicidade, aparecem a anunciar-nos a entrada de uns quantos milhares de palavras novas nos seus dicionários. Com o andar do tempo, a língua foi perdendo e ganhando, tornou-se, em cada dia que passou, simultaneamente mais rica e mais pobre: as palavras velhas, cansadas, fora de uso, resistiram mal à agitação frenética das palavras recém-chegadas, e acabaram por cair numa espécie de limbo onde ficam à espera da morte definitiva ou, na melhor hipótese, do toque da varinha mágica de um erudito obsessivo ou de um curioso ocasional, que lhe darão ainda um lampejo breve de vida, um suplemento de precária existência, uma derradeira esperança. O dicionário, imagem ordenada do mundo, constrói-se e desenvolve-se sobre palavras que viveram uma vida plena, que depois envelheceram e definharam, primeiro geradas, depois geradoras, como o foram os homens e as mulheres que as fizeram e de que iriam ser, por sua vez, e ao mesmo tempo, senhores e servos.”
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário V, 4.ª ed., Lisboa: Caminho, 1998, p. 35.
Hoje, a partir das 18h, a Fundação José Saramago comemora em Lisboa os 100 anos do nascimento do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001) com um programa que inclui leituras encenadas de excertos de obras do autor, música, capoeira e uma exposição.
O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa comemora esta data com a inclusão do verbete amadiano.
Retalhos de lexicografia na obra de José Saramago: "Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão os costumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais1 e Aurélios2, os Morenos3 e Torrinhas4, algumas gramáticas, o Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício, mas também estão as histórias da Arte, do Mundo em geral, dos Romanos, dos Persas, dos Gregos, dos Chineses, dos Árabes, dos Eslavos, dos Portugueses, enfim, de quase tudo que é povo e nação particular, e as histórias da Ciência, das Literaturas, da Música, das Religiões, da Filosofia, das Civilizações, o Larousse pequeno, o Quillet resumido, o Robert conciso, a Enciclopédia Política, a Luso-Brasileira, a Britânica, incompleta, o Dicionário de História e Geografia, um Atlas Universal destas matérias, o de João Soares, antigo, os Anuários Históricos, o Dicionário dos Contemporâneos, a Biografia Universal, o Manual do Livreiro, o Dicionário da Fábula, a Biografia Mitológica, a Biblioteca Lusitana, o Dicionário de Geografia Comparada, Antiga, Medieval e Moderna, o Atlas Histórico dos Estudos Contemporâneos, o Dicionário Geral das Letras, das Belas-Artes e das Ciências Morais e Políticas, e, para terminar, não o inventário geral, mas o que mais à vista está, o Dicionário Geral de Biografia e de História, de Mitologia, de Geografia Antiga e Moderna, das Antiguidades e das Instituições Gregas, Romanas, Francesas e Estrangeiras, sem esquecer o Dicionário de Raridades, Inverosimilhanças e Curiosidades, onde, admirável coincidência que vem a matar neste aventuroso relato, se dá como exemplo de erro a afirmação do sábio Aristóteles de que a mosca doméstica comum tem quatro patas, redução aritmética que os autores seguintes vieram repetindo por séculos e séculos, quando já as crianças sabiam, por crueldade e experimentação, que são seis as patas da mosca, pois desde Aristóteles as vinham arrancando, voluptuosamente contando, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, mas essas mesmas crianças, quando cresciam e iam ler o sábio grego, diziam umas para as outras, A mosca tem quatro patas, tanto pode a autoridade magistral, tanto sofre a verdade com a lição dela que sempre nos vão dando."
1 António de Morais Silva (1755-1824) 2 Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989) 3 Augusto Moreno (1870-1955) 4 Francisco Torrinha (1879-1953)
in José SARAMAGO, História do Cerco de Lisboa, Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 1998 (1989), pp. 26-27.
 A 10 de Dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas ratificou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento que pela primeira vez passou a proteger universalmente direitos humanos fundamentais, como aquele que se lê no seu artigo 5º: “ Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.” A 10 de Dezembro de 1998, exactamente meio século após a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Academia Sueca atribuiu a José Saramago (1922-2010) o Prémio Nobel da Literatura. No discurso proferido no palácio real de Estocolmo, o escritor lembrou a efeméride com o senso crítico que lhe era característico: “ Nestes cinquenta anos não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio semelhante.” Mantendo vivo o espírito das citações acima destacadas, a Fundação José Saramago realiza na próxima sexta-feira, dia 10 de Dezembro, no Palácio Galveias, em Lisboa, uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel de Literatura ao escritor português e dos 62 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mais informação, aqui.
“Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia, parece clara a sentença, clara, fechada e conclusa, uma criança será capaz de perceber e ir ao exame repetir sem se enganar, mas essa mesma criança perceberia e repetiria com igual convicção um novo dito, Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade, e este dito, sim, dá muito mais que pensar, e saborosamente imaginar, sólida e nua a fantasia, diáfana apenas a verdade, se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas, milagre é não endoidecerem os homens de cada vez que abrem a boca para falar.” José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis
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