.
Entrar | Contactos | Dicionário | FLiP.pt | LegiX.pt | Blogue | Loja

Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen

Fotografias de Eduardo Gageiro (1964).

Comemora-se hoje o centenário do nascimento da escritora e poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004).

A programação da celebração do Centenário de Sophia inclui concertos, leituras, exposições, conferências, teatro e dança.

Nós celebramos com dois poemas da autora sobre a escrita:

«A Escrita

No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava

Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar vazias as cadeiras

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos

E coisas que se vêem como quem vê outra coisa

Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela – como em certos quadros –
Tornando tudo atento»
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III, Lisboa: Caminho, 1990, pág. 328.


«Escrita II

Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha da memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara»
Idem, Ibidem, Lisboa: Caminho, 1990, pág. 348.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Agenda: Exposição «Quanto Fui, Quanto Não Fui, Tudo Isso Sou»


O verso «Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou», do poema abaixo transcrito “Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), dá nome à exposição de pintura e escultura com que o artista plástico Norberto Nunes homenageia a obra do poeta português.

A exposição, de entrada gratuita, está patente no Palácio de São Bento, em Lisboa, até ao dia 30 de Setembro. Mais informações aqui.


“Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,  
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,  
Arredores irregulares da minha emoção sincera,  
Sou eu aqui em mim, sou eu. 

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.  
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. 
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente, 
Como de um sonho formado sobre realidades mistas, 
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico, 
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ia sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,  
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,  
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,  
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,  
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,  
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,  
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. 

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, 
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, 
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — 
A impressão de pão com manteiga e brinquedos 
De um grande sossego sem Jardins de Proserpina, 
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela, 
Num ver chover com som lá fora 
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado, 
O emissário sem carta nem credenciais, 
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, 
A quem tinem as campainhas da cabeça 
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada 
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!…”

Álvaro de Campos

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Corsino Fortes (1933-2015)

(Corsino Fortes, © Anne Holmes)

Prestamos homenagem ao poeta cabo-verdiano Corsino Fortes, hoje falecido, com este seu poema:

Do nó de ser ao ónus de crescer
Do dia ao diálogo
Da promoção à substância
Romperam-se
As artérias
Em teu património
Agora povo agora pulso
Agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
Noite
Noite alta
E o batuque não pára
Em nossas ancas
AGORA POVO AGORA 

Corsino Fortes, Pão & Fonema, Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980, p. 45

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder (1930-2015)

É através da voz do próprio, e com o seu característico sotaque madeirense, que prestamos homenagem ao poeta português Herberto Helder (Prémio Pessoa 1994), falecido ontem.





Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisas puras.
Renascia.
                                                                                             

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Auto-retrato



Falecido há pouco mais de um mês, o poeta brasileiro Manoel de Barros comemoraria hoje o seu 98.º aniversário. Celebramos a data com as palavras do seu auto-retrato:

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.

Manoel de Barros, Poesia Completa, Lisboa: Leya, 2010, p. 337.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Perdida mente...



Relembramos hoje Florbela Espanca com o soneto “Amar!”, no dia em que se comemoram os aniversários do nascimento e da morte da poetisa portuguesa:


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, Sonetos, 30.ª ed., Lisboa: Bertrand Editora, 1999, p.137



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros (1916-2014)


Homenageamos o poeta brasileiro Manoel de Barros (Prémio Jabuti 1989), hoje falecido:

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos 
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de 
um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros, O livro das ignorãças, 3.ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993, p.17. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eduardo White (1963-2014)



Prestamos homenagem ao poeta moçambicano Eduardo White (Prémio Glória de Sant'Anna 2013), falecido ontem em Maputo, com o poema “O que vocês não sabem e nem imaginam”: 


Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações
[Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo,
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.

Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Agenda: Poesia em Pessoa



Se estiver por Lisboa no próximo sábado, dia 22, traga o seu Pessoa à rua para celebrar o dia mundial da poesia. Não se trata de erro de concordância, leitor. Vista-se como o poeta Fernando Pessoa e participe na iniciativa Poesia em Pessoa, da Fundação INATEL, que propõe uma concentração de Pessoas (indivíduos vestidos de Fernando Pessoa) no Largo de São Carlos, local do nascimento do poeta, com cortejo até ao Teatro da Trindade, onde se realizará um espectáculo de poesia, grátis para todos os Pessoas.

Mais informações sobre o programa, aqui.





Priberamt
.