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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Auto-retrato



Falecido há pouco mais de um mês, o poeta brasileiro Manoel de Barros comemoraria hoje o seu 98.º aniversário. Celebramos a data com as palavras do seu auto-retrato:

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.

Manoel de Barros, Poesia Completa, Lisboa: Leya, 2010, p. 337.

1 comentário:

  1. Um dos melhores escritor Portugués.
    Amo ler Manoel de Barros...
    É tudo de bom...

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