.
Entrar | Contactos | Dicionário | FLiP.pt | LegiX.pt | Blogue | Loja

Mostrar mensagens com a etiqueta lexicografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta lexicografia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de maio de 2018

M de mudança

O ano é 1813. A obra é a 2.ª edição do Diccionario da Lingua Portugueza, recompilado por António de Morais Silva, referência maior da lexicografia portuguesa1. O verbete consultado é mulher (pág. 327):
MULHÉR, s. f. Femea da especie humana. § Matrona, oposto a marido. § Mulher do mundo: meretriz. Eufr. I. 3. Mulher de partido; o mesmo. Costa, Terenc.2 

Avancemos um século, para 1913. A obra é a 2.ª edição do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, outra referência da lexicografia portuguesa. O verbete consultado é novamente mulher (pág. 1342):
mulhér f. Pessôa do sexo feminino, depois da puberdade. Espôsa: minha mulhér está doente. Fam. Pessôa do sexo feminino, pertencente ás classes inferiores da sociedade: vão alli duas mulheres. Fig. Homem mulherengo. * Pop. Espécie de jôgo popular. (Do lat. mulier)

Avancemos outro século e um tantinho mais, para chegarmos a 2018. A obra é agora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, dicionário online com mais de 33 milhões de utilizadores3. O verbete consultado continua a ser mulher, mas aconselha-se a sua visualização aqui, por ser bem mais extenso do que os dois acima. A presente versão resulta de uma iniciativa que, à luz do actual papel da mulher na sociedade, questionou o retrato redutor e pouco abonatório que dela é feito em alguns dicionários, incluindo o Dicionário Priberam pelas razões aqui expostas, desafiando os portugueses a contribuírem para a sua revisão.

Como se chegou até aqui? Um dicionário de língua regista o uso que dela é feito em determinada época e por determinado público. Ao percorrer rapidamente dois séculos de inúmeras transformações, verificamos que o mundo mudou, a sociedade mudou, o papel da mulher mudou e o do dicionário também, sendo por isso natural que o verbete mulher reflicta tais mudanças.

Em mais de 200 anos, o progresso e a necessidade de designar novos conceitos e realidades fizeram surgir termos e significados novos, na língua geral e nas mais diversas áreas, e os dicionários dão conta dessa evolução (ex.: astronauta, biodiversidade, caravanismo, digitalizar, esquizofrenia, futebol, genoma, helicóptero, internet, jazz, kickboxing, ludoteca, microfauna, nuclear, óvni, piza, radar, sida, televisão, uquelele, vitamina, wi-fi, xilitol, zoo, etc.).

A evolução implica também mudanças sociais e culturais e o papel da mulher é disso um exemplo: do acesso ao voto e à educação até à sua emancipação profissional e sexual, incluindo questões de identidade de género, muito mudou para a mulher, sobretudo nas últimas décadas. Veja-se o caso da feminização dos nomes de algumas profissões, decorrente do acesso da população feminina a tais cargos, que está na origem de termos como árbitra, bombeira, cirurgiã, embaixadora, mecânica, tatuadora, vice-ministra, etc. Note-se, ainda, a adequação de género gramatical em casos como presidente, chefe, dentista, jornalista ou terapeuta, vocábulos em tempos dicionarizados apenas como substantivos masculinos, e agora como substantivos de dois géneros (ex.: a presidente, o presidente), porque eram desempenhados maioritariamente por pessoas do sexo masculino. A mulher deixou de ser fêmea, esposa ou meretriz no dicionário? Não, mas os dicionários descrevem hoje o que ela é para além dessa visão, combatendo assim a perpetuação de estereótipos.

Em mais de 200 anos, mudou também o formato do dicionário e o seu papel. Numa altura em que a ideia de mudança linguística era por vezes sinónimo de instabilidade, ou mesmo de corrupção, os dicionários impressos do século XIX assumiram um papel normativo, de autoridade, e estabilizaram um pouco a língua. As suas fontes centravam-se em obras literárias (de que são exemplo Eufrosina e Terencio, no verbete mulher de 1813, acima), através das quais se aferia o bom uso de determinado termo ou expressão. É a visão do dicionário como guia do uso correcto da língua4.

Na segunda metade do século passado, porém, esse papel começou a mudar e o paradigma normativo deu lugar a novos modelos de dicionário, mais orientados para o utilizador e para a descrição do uso real da língua5. O desenvolvimento tecnológico e computacional acelerou essa revolução lexicográfica, pois permitiu criar e gerir bases de dados de dicionários, bem como compilar e analisar largas quantidades de informação, dos mais variados domínios e registos de língua, que atestam o seu uso efectivo. O dicionário foi perdendo o estatuto de texto prescritivo, assumindo uma abordagem descritiva na selecção das palavras e na forma como as define. Por fim, quando o suporte físico do papel dá lugar ao suporte electrónico e digital, a informação contida em volumes impressos, pesados e ao alcance de apenas alguns, passa a estar rapidamente acessível através de um toque de dedos e disponível para todos.

O Dicionário Priberam chega ao grande público em plena era digital, como obra online e de acesso gratuito. Sem os condicionamentos de espaço típicos dos dicionários em papel, o Priberam constitui-se uma plataforma lexicográfica inovadora que, para além do conteúdo habitual de um dicionário, facilita a busca, permite pesquisas nas definições, apresenta informação relacionada, como conjugação, parónimos, palavras parecidas e relacionadas, dúvidas linguísticas, propostas de tradução e até evidência do uso real, contextualizado e autêntico da palavra pesquisada em blogues e no Twitter. O dicionário é agora uma ferramenta de consulta, mais próxima do utilizador, com quem permite interacção, e mais dinâmica. O dicionário não ignora o desenvolvimento recente de novos usos linguísticos reveladores de atitudes e realidades contemporâneas. Veja-se o exemplo de casal ou casamento, termos que já não se definem exclusivamente em relação a elementos de sexos diferentes.

O papel do dicionário, como o entendemos, é registar, de forma controlada, os usos da língua e o seu dinamismo. Por essa razão, no Dicionário Priberam haverá sempre espaço para melhoramentos, sugestões de inclusão, de correcção ou comentários que possam beneficiar o seu conteúdo. Os mesmos podem ser enviados para o endereço do costume: dicionario@priberam.pt. Estamos no entanto conscientes de que, por mais palavras e sentidos que um dicionário registe, nenhum dicionário regista todos os vocábulos e sentidos de uma língua e o Dicionário Priberam não é excepção. A língua é uma entidade viva que não se contém nas páginas de um dicionário e a sua mudança é inevitável:

«It is a great pity that language cannot be the exact, finely attuned instrument that deep thinkers wish it to be. But the facts are, as we have seen, that the meaning of practically any word is susceptible to change of one sort or another, and some words have so many individual meanings that we cannot really hope to be absolutely certain of the sum of these meanings.»6

Terminamos com duas perguntas: se avançarmos mais um século, qual será a definição de mulher em 2118? E que tipo de dicionários teremos daqui a cem anos?

____________________
Notas:
2 Eufr. é abreviatura de Eufrosina, comédia de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1616). Costa, Terenc. é abreviatura da obra As primeiras quatro comedias de Publio Terencio Africano, traduzida por Leonel da Costa (1788).
4 B. T. Atkins, Michael Rundell (2008), The Oxford Guide to Practical Lexicography, Oxford: O.U.P., pág. 2.
5 R. R. K. Hartmann, Gregory James (2002), Dictionary of Lexicography, London & New York: Routledge, pp. viii-ix.
6 Thomas Pyles, John Algeo (1993), The Origins and Development of the English Language, 4.ª ed., Fort Worth: Harcourt Brace Jovanovich College Publishers, pág. 256.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Abrir um dicionário

Quem acompanha a Priberam sabe que a “Palavra do dia” é uma palavra que surge destacada na página do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP), sendo também publicitada diariamente no Facebook e no Twitter. As palavras do dia são, geralmente, palavras raras, curiosas ou pouco consultadas, às quais se procura dar algum destaque, nem que seja por um dia.

Como em qualquer dicionário de língua, porém, no DPLP também existem “palavras-defuntas”, aquelas que estão “ali paradinhas, quietas, mudas (no sentido literal e metafórico) porque não falam, ninguém fala por elas e ninguém as fala”. Quem assim as define é o escritor Gonçalo M. Tavares que, no texto que se transcreve abaixo, disserta sobre o papel dos dicionários:

«Uma palavra que durante décadas não seja utilizada na rua ou nos livros e permaneça apenas no dicionário tem um destino à vista: ser palavra-defunta. O dicionário pode ser visto, assim, como uma antecâmara da morte. Como se algumas palavras estivessem ali paradinhas, quietas, mudas (no sentido literal e metafórico) porque não falam, ninguém fala por elas e ninguém as fala – com se estivessem, então, ali em fila, em linha, à espera do seu próprio velório.
     Ou podemos então mudar radicalmente de ponto de vista: o dicionário, com os seus milhares e milhares de palavras, pode ser entendido como um depósito contra o esquecimento, um enorme arquivo. Eis, pois, um outro nome possível para o dicionário: instrumento para evitar o esquecimento.
   Imaginemos, por absurdo, que os dicionários desapareciam. Que uma qualquer ordem política determinava a sua destruição. Pois bem, seria uma matança. Em poucas décadas morreriam palavras como tordos. E se, no limite, não existisse qualquer livro, e ficássemos apenas […] com a linguagem das conversas rápidas, então o vocabulário ficaria reduzido ao mais essencial e mínimo: sim, não, comida, bebida, etc. Poderíamos assim, com a linguagem, expressar as necessidades do organismo mas certamente não as do espírito.
     Abrir o dicionário, pois, como ato de resistência e salvação: não vou ficar só com as palavras que ouço ou leio nos livros comuns – eis o que se poderia dizer. Abrimos ao acaso na página 310, e depois na página 315, sempre com a firme determinação de salvar duas ou três palavras de cada página. Como aquele que salva quem se está a afogar. E não é por acaso, aliás, que muitas das mitologias remetem o esquecimento para a imagem do rio. Uma água onde as coisas se afundam, deixam de ser vistas à superfície, desaparecem da vista. A passagem do rio utilizada também como metáfora do tempo que passa e leva e afunda as coisas que ainda há momentos estavam à nossa frente, bem vivas. Salvar palavras da água que engole e faz esquecer as coisas, eis o que é, em parte, abrir um dicionário.
     Dotados, então, de um espírito de nadador-salvador, abrimos ao acaso o dicionário e trazemos palavras mais ou menos raras – umas que já nadam há muito debaixo de água, com dificuldades, outras, mais resistentes, mais visíveis, mas ainda estimulantes (e algumas bem conhecidas dos nossos clássicos).
     Passemos pela letra M. Ao acaso e rapidamente.
     Morato – adjetivo que significa bem organizado.
     Maçaruco – (regionalismo) indivíduo mal trajado.
     Manajeiro – aquele que dirige o trabalho das ceifas ou outros.
     Metuendo – que mete medo; terrível; medonho.
     E tropeçamos depois em palavras de significado popular e óbvio, mas bem divertido:
     Mata-sãos: médico incompetente; curandeiro.
     Eis, pois, a partir daqui, uma frase possível que quase poderíamos introduzir numa conversa de café (uma frase em letra M):
     - O manajeiro metuendo, maçaruco, aproximou-se do morato espaço do mata-sãos e disse: por favor, aqui não, vá curar mais além.»

Gonçalo M. Tavares, Visão, 22 de Setembro de 2011

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

“Momento aha” da Priberam


O Merriam-Webster's Collegiate Dictionary, dicionário norte-americano de língua inglesa, revelou há algum tempo uma lista com os novos vocábulos incluídos no dicionário. Entre as inclusões mais recentes encontra-se a expressão nominal aha moment [= momento aha], que designa um momento de percepção, inspiração, descoberta ou compreensão súbita. A expressão é uma espécie de heureca moderna mas com menos impacto e tornou-se célebre graças à apresentadora Oprah Winfrey, que abaixo explica o seu significado:


Recentemente, e após o enésimo pedido para explicar o significado do nome Priberam, também nós tivemos o nosso “momento aha”: criámos o verbete Priberam no Dicionário Priberam! Pronto, é só isso.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dicionários por medida

Na nuvem das palavras mais consultadas no Dicionário Priberam, encontrava-se esta semana a palavra cigano:

(imagem captada em 28-02-2012)

Uma busca na Internet revela a razão para a palavra cigano ser tão consultada: de acordo com a notícia publicada na página da Procuradoria Geral da República Brasileira, o Ministério Público Federal de Minas Gerais apresentou queixa contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss por considerar que o Dicionário Houaiss contém expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos:

«[...] “Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura [sic] cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou, ainda, que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação”, diz o procurador.
[...] Para ele, o fato de as afirmações serem feitas por uma publicação, que, por sua própria natureza, encerra um sentido de verdade, agrava ainda mais a situação. “Ora, trata-se de um dicionário. As pessoas consultam-no para saber o significado de uma palavra. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Pelo contrário. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida [sic] em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada”. [...]».

Como é possível que uma língua tenha palavras e acepções (como cigano, coninhas, fufa, galego, judeu, pretalhada ou rabeta) que podem insultar ou ofender? Deverá um dicionário registá-las?

Em resposta à última pergunta, a lexicografia actual assume que um dicionário deve seguir uma abordagem descritiva na selecção das palavras e na forma como as define, usando nomeadamente um conjunto de etiquetas ou sinais para assinalar níveis de língua (como linguagem informal ou calão) ou usos específicos (como expressões depreciativas ou insultuosas), não devendo o autor ou editor do dicionário impor a sua opinião sobre o uso da língua1.

Onde reside afinal o preconceito: nos falantes, que optam propositadamente por ofender com palavras, ou no dicionário, que descreve e indica o uso potencialmente ofensivo de determinados termos? Note-se que, como em muitos outros casos do género, o Dicionário Houaiss assinala as acepções que podem ser consideradas ofensivas com a indicação “pej.”, redução de “pejorativo”. O uso pejorativo é «[...] característico de palavras, expressões ou acepções que são (ou, na dependência do contexto, podem ser) grosseiras, ofensivas, ferinas ou preconceituosas [...]»2.

Ao alertar para termos e empregos preconceituosos, informais ou obscenos, muitas vezes desconhecidos dos falantes, seja porque pertencem a diferentes enquadramentos socioculturais, seja porque são falantes estrangeiros, os dicionários estão a alertar os consulentes para a possibilidade de usarem linguagem ofensiva ou de ferirem as susceptibilidades de outros falantes.

No entanto, nem sempre foi assim, como se pode comprovar consultando o verbete cigano num dicionário de língua portuguesa do início do século XX:

cigano,1 m. Aquelle que pertence á raça dos ciganos. Adj. Trapaceiro; ladino. M. pl. Povo errante e miserável, de procedencia indiana, que, fugindo á invasão mongólica, se distribuiu por todo o mundo, falando dialectos que são prácritos corrompidos, e empregando-se ora em enganar vendedores ou compradores de gados nas feiras, ora na pirataria, no acrobatismo, etc. (Al. zigeuner, russo tzigane).
(in Cândido de Figueiredo, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1913, p. 444)

Um dicionário deve ser feito à medida de uma língua. E, do mesmo modo que não são os repórteres de guerra que fazem a guerra com as atrocidades, crimes e mortes que divulgam nas imagens que registam, não são os dicionários que fazem a língua, são os falantes, tenham eles a nacionalidade, etnia, religião, ideologia, opção sexual, idade ou o género que tiverem.

Como a Priberam já teve oportunidade de explicar, relativamente a galego e às locuções sexo forte e sexo fraco, a função de um dicionário passa por uma descrição dos usos da língua, devendo basear-se essencialmente em factos linguísticos e não estabelecer juízos de valor relativamente a eles, antes apresentá-los o mais objectivamente possível.

Este não é, na língua portuguesa ou em qualquer outra língua, um caso único, pois as línguas, enquanto sistemas de comunicação, veiculam também os preconceitos da cultura em que se inserem, como também refere o comunicado disponibilizado na página do Instituto Antônio Houaiss:

«[...] Nenhum dicionário deve ocultar empregos preconceituosos de palavras quando se vê diante deles. Registramos precisamente o que encontramos, tanto dentro do padrão culto da língua como no informal. Os dicionários não inventam palavras nem acepções. Nesse espelho em que nos constituímos refletem-se a realidade da língua e os sentimentos dos seus falantes, ora com sua beleza e simpatia, ora com sua crueldade, com seus sentimentos e atitudes desfavoráveis para com minorias etc. Ninguém supõe eliminar dos dicionários palavras como guerra, tortura, violência, pedofilia com fim de conter ou impedir que tais tormentos continuem a existir. Fazê-lo seria apenas varrer para debaixo do tapete o que nos envergonha, mas isso não serve de ação preventiva nem eliminadora do mal que tais conceitos e outros preconceitos acarretam. Que fazer nos dicionários em tais casos, então? Registrar a palavra ou a acepção e dizer claramente, quando é o caso, que ela é pejorativa e preconceituosa. É como fazem os dicionários modernos em todo o mundo.»


1 Piet Swanepoel “Dictionary typologies: A pragmatic approach” in Piet van Sterkenburg (ed.), A Practical Guide to Lexicography, John Benjamins Publishing Company, Amsterdam/Philadelphia, 2003, p. 65.
2 Ver o tópico “Nível de uso” da secção “Detalhamento do verbete” em “Conhecendo o dicionário”, na Ajuda do Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa, versão 1.0.5a.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Paciência de Anatoly

À paciência de Job e à paciência de John pode acrescentar-se a paciência de Anatoly.

Segundo o jornal norte-americano Star Tribune, Anatoly Liberman, professor da Universidade de Minnesota, dedica-se há mais de duas décadas a um projecto lexicográfico invulgar: um dicionário etimológico analítico, com a história detalhada de 1000 palavras da língua inglesa usualmente consideradas de “origem obscura”.

Não se trata de um dicionário comum: é uma obra extensa, em vários volumes, que visa descrever detalhadamente a origem de vocábulos ingleses problemáticos do ponto de vista etimológico, como por exemplo girl (rapariga), oat (aveia) ou witch (bruxa).

Em Portugal, a etimologia muito deve a José Pedro Machado (1914-2005), que, com os seus Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa1 e Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa2, foi o principal impulsionador dos estudos etimológicos da língua portuguesa no século XX.

Para além de José Pedro Machado, existe outra obra referencial nos estudos etimológicos portugueses, o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa3, do brasileiro Antônio Geraldo da Cunha.

Mais recentemente, surgiu o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa4, obra igualmente essencial nesta área de estudos, apesar de colocar, em cada entrada, apenas uma resenha das opiniões dos estudiosos da etimologia, muitas vezes sem proporcionar mais achegas.

Tirando estas obras mais “recentes”, não há publicação de outros estudos sobre os étimos das palavras portuguesas, nomeadamente daquelas que ainda são consideradas de origem obscura.

Esperemos que um dia surja um Anatoly Liberman para a língua portuguesa.


1 José Pedro MACHADO, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa - com a mais antiga documentação escrita e conhecida de muitos dos vocábulos estudados, 3.ª ed., 5 vol., Lisboa: Livros Horizonte, 1977 (1956).
2 José Pedro MACHADO,
Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 3.ª ed., 3 vol., Lisboa: Livros Horizonte, 2003 (1984).
3 Antônio Geraldo da CUNHA,
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 4.ª ed., Rio de Janeiro: Lexikkon, 2010 (1982).
4 Antônio HOUAISS, Mauro VILLAR,
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda., Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2009.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aurélios e Morais na História do Cerco de Lisboa

Retalhos de lexicografia na obra de José Saramago:

"Aqui, neste escritório onde a verdade não pode ser mais do que uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, estão os costumados dicionários da língua e vocabulários, os Morais1 e Aurélios2, os Morenos3 e Torrinhas4, algumas gramáticas, o Manual do Perfeito Revisor, vademeco de ofício, mas também estão as histórias da Arte, do Mundo em geral, dos Romanos, dos Persas, dos Gregos, dos Chineses, dos Árabes, dos Eslavos, dos Portugueses, enfim, de quase tudo que é povo e nação particular, e as histórias da Ciência, das Literaturas, da Música, das Religiões, da Filosofia, das Civilizações, o Larousse pequeno, o Quillet resumido, o Robert conciso, a Enciclopédia Política, a Luso-Brasileira, a Britânica, incompleta, o Dicionário de História e Geografia, um Atlas Universal destas matérias, o de João Soares, antigo, os Anuários Históricos, o Dicionário dos Contemporâneos, a Biografia Universal, o Manual do Livreiro, o Dicionário da Fábula, a Biografia Mitológica, a Biblioteca Lusitana, o Dicionário de Geografia Comparada, Antiga, Medieval e Moderna, o Atlas Histórico dos Estudos Contemporâneos, o Dicionário Geral das Letras, das Belas-Artes e das Ciências Morais e Políticas, e, para terminar, não o inventário geral, mas o que mais à vista está, o Dicionário Geral de Biografia e de História, de Mitologia, de Geografia Antiga e Moderna, das Antiguidades e das Instituições Gregas, Romanas, Francesas e Estrangeiras, sem esquecer o Dicionário de Raridades, Inverosimilhanças e Curiosidades, onde, admirável coincidência que vem a matar neste aventuroso relato, se dá como exemplo de erro a afirmação do sábio Aristóteles de que a mosca doméstica comum tem quatro patas, redução aritmética que os autores seguintes vieram repetindo por séculos e séculos, quando já as crianças sabiam, por crueldade e experimentação, que são seis as patas da mosca, pois desde Aristóteles as vinham arrancando, voluptuosamente contando, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, mas essas mesmas crianças, quando cresciam e iam ler o sábio grego, diziam umas para as outras, A mosca tem quatro patas, tanto pode a autoridade magistral, tanto sofre a verdade com a lição dela que sempre nos vão dando."

1 António de Morais Silva (1755-1824)
2 Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989)
3 Augusto Moreno (1870-1955)
4 Francisco Torrinha (1879-1953)

in José SARAMAGO, História do Cerco de Lisboa, Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 1998 (1989), pp. 26-27.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Lellito

Retalhos de lexicografia antiga na literatura cronística moderna:

“O ex-comando recusou um Morais1 que eu lhe quis oferecer pelos anos: «Isso é gastar cera com ruins defuntos, Senhor Doutor. Para o material que Vossa Excelência me entrega, o Lellito2 dá e sobra.»
Não sei se as palavras lhe saíram por sobranceria ou por insensibilidade mas, em qualquer caso, revelam estouvamento. O Prático Ilustrado é um excelente dicionário, mas não tem dimensão que dê para os cambiantes da Prosa com P grande.”

in A.B. KOTTER, Bilhetes de Colares 1982-1998. in memoriam José Cutileiro. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 40. Organização e posfácio de Fernando Venâncio.



1António de Morais SILVA, Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Confluência, 1949 [1789].
2
Dicionário Prático Ilustrado. Porto: Lello & Irmão, 1956.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Palavras que faltam na língua portuguesa

A propósito das 100 000 entradas do Dicionário Priberam, o vídeo que se segue para além de questionar a falta de originalidade dos títulos de dicionários*, permite reflectir sobre lacunas lexicais e sobre inclusão de novas palavras em dicionários.

Com o contributo do Gato Fedorento, ficamos a saber que algumas das palavras que faziam falta na língua portuguesa foram já criadas, nomeadamente as que designam a “sensação irritante de ter o peúgo dentro do sapato e enrugado na zona do calcanhar” ou a “frustração decorrente do facto de abrir o frigorífico para beber um copo de leite e dar conta que o leite acabou”. Quem quiser saber que palavras devemos usar para designar estas e outras realidades, é só clicar no vídeo:




*Uma rápida pesquisa bibliográfica revela a existência de vários dicionários com os termos “novo” e “língua portuguesa”, de ambas as margens lexicográficas do Atlântico:

Lexilello: Novo Dicionário de Língua Portuguesa (Porto: Lello & Irmão Editores, 1989).
Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Curitiba: Editora Positivo, 2004).
Novo Dicionário da Língua Portuguesa Conforme Acordo Ortográfico (Lisboa: Texto Editores, 2007).
Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa (Porto: Lello Editores, 1999).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O contraditório e os contra-argumentos

Nem sempre a blogosfera permite o contraditório. Mas neste caso permitiu. Assim mesmo.

Helder Guégués argumentou assim:
    “«Foi já no Governo que Maria João Seixas o re-encontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente» («O mais civil dos militares de Abril», Paulo Chitas, Visão, 13.01.2011, p. 43).
    Como já aqui escrevi uma vez, salvo para afirmar, na Base II, n.º 2, b), que o h inicial é suprimido quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente (reabilitar, reaver), nunca o Acordo Ortográfico de 1990 refere o prefixo re-, mas nem mesmo a omissão deixou a salvo a regra que tradicionalmente se observa. Parece que confiaram tudo ao corrector ortográfico Flip 7, da Priberam, que interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»). Concretamente, a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno
    Os redactores do acordo foram imprudentes ao não referirem as excepções. «Um caso», comentou aqui o leitor Franco e Silva, «é aquele que muito bem comenta, o do prefixo re- quando se segue palavra iniciado com e, em que o bom senso e a antiquíssima e estabilizada tradição vocabular justifica a fusão dos elementos (como em reeditar e reeleger, etc.). Outro caso é o do prefixo sub- quando se segue um elemento vocabular iniciado por r ou b (sub-reptício, sub-roda, sub-base, sub-bibliotecário, etc.) em que o bom senso, a cimentada tradição vocabular e até a orientação de pronunciação justificam a sua manutenção. Causa estranheza que conceituados linguistas aceitem a segunda excepção, mas não a primeira, a contrario do VOLP (ALB), que na nossa opinião muito bem, pontificaram como distracções as lamentáveis omissões da comissão luso-brasileira do A.O. e hifenizaram tais palavras.»
    E agora uma experiência: pego na frase da Visão e analiso-a no conversor ortográfico da Porto Editora, gratuito. Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Muito bem, então agora modifico a frase: «Foi já no Governo que Maria João Seixas o reencontrou, acedendo ao convite para ser sua assistente.» Resultado: «17 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Poderá haver análises mais científicas, com recurso a algoritmos e não sei que mais, mas eu estou satisfeito.


E a Priberam contra-argumentou assim:
    “No seu blogue, que a Priberam preza e acompanha com regularidade, numa publicação de 29-01-2011 com o título de “O prefixo «re-» no AOLP” [post 4372], afirma que o FLiP 7, da Priberam, “interpretou erradamente a Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 («Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação»).” Mais refere que “a origem do erro está na interpretação da alínea b), n.º 1, daquela base: «Nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno.»”.
    Relativamente a este assunto, a Priberam gostaria de manifestar respeito pela sua opinião e partilhar consigo os fundamentos das nossas opções sobre o assunto da sua publicação.
    Segundo o disposto na Base XVI
, 1.º, alínea b) do Acordo Ortográfico de 1990, utiliza-se o hífen “nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento”. É esta regra que justifica, por exemplo, a nova grafia de sobre-endividamento, cujo prefixo surge no exemplário apresentado no ponto 1º da referida base. O texto do Acordo Ortográfico é inequívoco relativamente ao uso de hífen com um prefixo que termina na mesma vogal com que se inicia o elemento seguinte, pelo que esta regra deveria ser também aplicada ao prefixo re-. Para este ponto, o texto legal estabelece uma única excepção, na nota à alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, referindo-se apenas ao prefixo co-, que deverá ser usado sempre sem hífen. Com o Acordo de 1990, as regras para o uso do hífen nos casos de prefixação passam a ser gerais e contextuais, ao contrário do Acordo de 1945, que aplicava regras específicas a um prefixo ou a um grupo fechado de prefixos.
    Foi este o entendimento inicial da Priberam, uma vez que outra interpretação contraria claramente a letra e o espírito do Acordo Ortográfico, estabelecendo uma excepção não prevista. A Priberam entendeu que seria ilógico tomar a excepção prevista para co- como modelo para re-, uma vez que as excepções devem estar explícitas no texto e não ser obtidas por dedução. Também a "Nota Explicativa" (ponto 6.3) reitera o que é referido na base XVI, 1.º, alínea b): "uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte: (...) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen". Como este não é o caso nas sequências re-e..., o hífen deveria ser usado neste contexto.
    Apesar disto, no Brasil, a Academia Brasileira de Letras (ABL), no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo: Global, 2009) [VOLP], entendeu que deveria instituir uma excepção para o prefixo re-. A única justificação apresentada pela Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL na "Nota explicativa" (pp. LI a LIII) do referido Vocabulário é que uma das medidas tomadas foi "incluir, por coerência e em atenção à tradição lexicográfica, os prefixos re-, pre- e pro- à excepcionalidade do prefixo co-". Se para os prefixos pre- e pro- parece haver uma justificação, não pela alínea b) do ponto 1.º da Base XVI, mas pela alínea f), o mesmo não acontece com o prefixo re-. Por outro lado, é invocada a tradição lexicográfica quando se trata de um tópico sobre o qual o Acordo Ortográfico se pronuncia, alterando justamente a tradição lexicográfica e as indicações prescritas pelo Acordo Ortográfico anterior.
    Em Portugal, o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), cujo Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) foi recentemente adoptado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, publicada em 25 de Janeiro de 2011 no Diário da República n.º 17, I Série, pág. 488, seguiu a mesma interpretação da ABL. A Priberam manteve a sua interpretação inicial de grafar re-e... até à data em que o VOP passou a ser indicado nesta resolução como uma obra lexicográfica de referência em Portugal, nomeadamente no ensino, a partir do ano lectivo de 2011/2012. Os recursos linguísticos da Priberam têm vindo a ser alterados desde 25 de Janeiro de 2011 para seguir a excepção instituída pelo VOLP da ABL e seguida pelo VOP do ILTEC.
    Sublinhe-se que esta é uma opção que decorre da publicação do VOLP e do VOP e não da aplicação da letra e do espírito do Acordo Ortográfico, cujo texto altera inúmeros outros casos de grafias tradicionalmente estáveis. Como exemplo de grafias em que o AO vai contra a tradição lexicográfica, pode referir-se novamente o prefixo sobre-, que já em obras do século XVIII (como o Vocabulario Portuguez & Latino, de Raphael Bluteau [1728] ou o Diccionario da lingua portugueza, de Antonio de Moraes Silva [1789]) ou do início do século XX (como o Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo [1913]) era sempre grafado sem hífen quando o elemento seguinte se iniciava com a letra e. Em determinados pontos em que o AO é omisso ou não explicita regras gerais (como, por exemplo, no caso de alforge/alforje ou de connosco/conosco), a tradição do registo lexicográfico de certas palavras poderá ser um argumento invocável, uma vez que não há outra maneira de se saber ou inferir qual a ortografia a adoptar. Se a tradição lexicográfica pudesse ser invocada constantemente como argumento para a manutenção de determinadas grafias, os acordos ortográficos deixariam de fazer sentido, uma vez que o objectivo destes é precisamente a alteração ou simplificação de determinadas grafias e regras ortográficas (por vezes divergentes), preconizadas durante décadas por obras lexicográficas.
    O texto do Acordo de 1990 não prevê soluções para muitos dos problemas que cria e é lacunar, ambíguo ou incoerente em alguns aspectos, pelo que foi necessário definir linhas gerais explícitas e fornecer ao utilizador a explicação de algumas opções tomadas pela Priberam, que estiveram sempre disponíveis ao público (cf. http://www.priberam.pt/docs/CriteriosFLiPAO.pdf), desde o primeiro produto com opção de correcção e consulta segundo a nova grafia.
    A reflexão acima, ainda que longa, pretende apenas apresentar uma posição que entendemos defensável (não podendo ser qualificada de erro), pois as várias versões do FLiP que incluem a ortografia segundo o Acordo Ortográfico de 1990 foram desenvolvidas ao longo de vários anos, com um trabalho contínuo baseado no texto legal, dada a ausência de instrumentos lexicográficos reguladores autorizados, nomeadamente o "vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa", previsto no art.º 2.º do texto do Acordo, que permitam substituir as obras tidas como referência maior na lexicografia portuguesa, de que são exemplo o Tratado de Ortografia e o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pela língua portuguesa

É possível gostar da língua portuguesa de muitas maneiras: uns gostam dela sem erros ortográficos ou sem pontapés na gramática, sem palavrões, sem estrangeirismos, sem sexismos; outros, sem variedades geográficas, sociais ou temporais e outros ainda sem o acordo ortográfico de 1990. Até há quem goste dela sem acordo de 1945, pelo menos em Portugal. Para todos os “sem” anteriores, há também quem goste dela com os correspondentes “com”: com erros ortográficos, com pontapés na gramática, com palavrões, com estrangeirismos, etc. Na Priberam, gostamos dela, ponto final. É por essa razão que o nosso trabalho contribui para a sua difusão, através dos nossos produtos e serviços linguísticos, o mais conhecido dos quais é o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP).

Fruto dos tempos contestatários e reivindicativos que se vivem (ou talvez não...), agora há também quem goste da língua portuguesa através da causa “Por uma Língua Portuguesa sem publicidade”. Não é o nosso caso. Porquê? Porque esta é uma causa que tem de se colocar em causa, já que confunde muitas coisas, confundindo nomeadamente a língua portuguesa com dicionários de língua, a julgar pelos seguintes comentários, da autoria de João Filipe Ferreira: “A língua Portuguesa não é do Priberam, é do povo Português! O portal da priberam não se tornou num dicionário, tornou-se num portal semítico-financeiro sem o propósito primordial de revelar o significado da palavra. Cinjamo-nos ao verbete! Por uma Língua Portuguesa Livre de Publicidade e de adereços prescindíveis!” [citação retirada em 24-11-2010].

Para que não haja dúvidas, uma língua é uma língua, um dicionário é um dicionário. Quanto à língua portuguesa, ela é dos seus falantes, tenham eles a nacionalidade que tiverem. Como é óbvio, a Priberam nunca a reclamou como sua, mas reclama seu o investimento que tem feito no DPLP, que não é um dicionário qualquer.

Como é referido na secção "Sobre o dicionário", o DPLP é a plataforma lexicográfica online da Priberam, lançada em 2009, após aquisição, em 2008, dos direitos do Novo Dicionário Lello da Língua Portuguesa (Porto, Lello Editores, 1996 e 1999), também conhecido apenas por Lello. O Lello foi o ponto de partida mas já não pode ser comparado ao DPLP, pois a Priberam fez a adaptação a um formato electrónico, a actualização da estrutura e conteúdo do dicionário e o enriquecimento com outro tipo de informação linguística. O DPLP disponibiliza, para além dos blocos de anúncios, a palavra e a dúvida do dia em destaque, o acesso rápido a vários tipos de pesquisas (com e sem o novo acordo ortográfico), a definições, a sinónimos e antónimos gerais e por acepção, a exemplos de uso (através de exemplos explícitos no texto do verbete ou de ocorrências reais no Twitter), a remissões para dúvidas linguísticas, à conjugação verbal, aos auxiliares de tradução. Tudo isso, sem qualquer custo para os consulentes, mas, sublinhe-se, com custos para a Priberam.

A causa “Por uma Língua Portuguesa sem publicidade” insurge-se contra o espaço ocupado pela publicidade na página do DPLP mas, apesar do que possa parecer, a publicidade do DPLP não paga as despesas que a Priberam tem com a sua manutenção, nomeadamente os custos com recursos humanos, servidores, software, conectividade, actualizações contínuas do conteúdo, respostas a dúvidas, etc. Talvez não fosse má ideia lançar uma causa para mais pessoas consultarem o DPLP para que a Priberam possa mantê-lo gratuito e com o nível de serviço e actualização que actualmente disponibiliza. Relembramos que a Priberam é uma empresa privada que não depende de subsídios ou subvenções nem tem verbas inscritas em orçamentos de Estado.

Por fim, ficam aqui algumas sugestões de outras causas, quiçá mais prementes:
- pela disponibilização gratuita e online das obras lexicográficas da Academia das Ciências de Lisboa, instituição pública e com funções estatutárias de defesa da língua portuguesa;
- pela edição de um vocabulário comum autorizado, tal como previsto pelo acordo ortográfico de 1990;
- pelo combate à iliteracia;
- pelo incentivo à prática regular da leitura;
- pela melhoria da qualidade e das condições de ensino da língua portuguesa nas escolas e nas universidades.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Paciência de John

Lexicógrafos como Aurélio Buarque de Holanda (Novo Dicionário da Língua Portuguesa), Cândido de Figueiredo (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1899), Émile Littré, (Dictionnaire de la Langue Française), James Murray (Oxford English Dictionary) ou Samuel Johnson (Dictionary of the English Language), entre tantos outros, teriam talvez compreendido. Mas na actual era tecnológica, em que tudo está à distância de apenas um clique, parece incompreensível que John M. Carrera tenha passado 10 anos da sua vida a imprimir o seu Pictorial Webster. Por isso, da próxima vez que um lexicógrafo se queixar do define-apaga-redefine sisífico que lhe compete, e tiver 8 minutos livres, aconselha-se a visualização deste vídeo:

.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Simplesmente Aurélio

Celebra-se hoje o centenário do nascimento de Aurélio Buarque de Holanda, um dos principais nomes da lexicografia em língua portuguesa do séc. XX.

Tendo multiplicado a sua actividade profissional por várias áreas das letras – foi contista, crítico literário, ensaísta, filólogo, professor e tradutor –, Aurélio Buarque de Holanda celebrizou-se como lexicógrafo, nomeadamente após o aparecimento do Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975). Resultado de muitos anos de trabalho, a obra, quer pelo modelo, quer pela abrangência (a 2ª edição, de 1987, continha cerca de 150 mil vocábulos), depressa se tornou referência lexicográfica e sucesso de vendas. Aurélio passou então a ser sinónimo de dicionário. Hoje é também sinónimo de corrector:

O Novo Corretor Aurélio 2 é um pacote de ferramentas linguísticas para o português do Brasil, desenvolvido pela Priberam e comercializado pela Positivo Informática, compatível com as aplicações da Microsoft para Windows.






Priberamt
.