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quinta-feira, 1 de março de 2012

Dicionários por medida

Na nuvem das palavras mais consultadas no Dicionário Priberam, encontrava-se esta semana a palavra cigano:

(imagem captada em 28-02-2012)

Uma busca na Internet revela a razão para a palavra cigano ser tão consultada: de acordo com a notícia publicada na página da Procuradoria Geral da República Brasileira, o Ministério Público Federal de Minas Gerais apresentou queixa contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss por considerar que o Dicionário Houaiss contém expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos:

«[...] “Ao se ler em um dicionário, por sinal extremamente bem conceituado, que a nomenclatura [sic] cigano significa aquele que trapaceia, velhaco, entre outras coisas do gênero, ainda que se deixe expresso que é uma linguagem pejorativa, ou, ainda, que se trata de acepções carregadas de preconceito ou xenofobia, fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação”, diz o procurador.
[...] Para ele, o fato de as afirmações serem feitas por uma publicação, que, por sua própria natureza, encerra um sentido de verdade, agrava ainda mais a situação. “Ora, trata-se de um dicionário. As pessoas consultam-no para saber o significado de uma palavra. Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Pelo contrário. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será internalizado, levando à formação de uma postura interna pré-concebida [sic] em relação a uma etnia que deveria, por força de lei, ser respeitada”. [...]».

Como é possível que uma língua tenha palavras e acepções (como cigano, coninhas, fufa, galego, judeu, pretalhada ou rabeta) que podem insultar ou ofender? Deverá um dicionário registá-las?

Em resposta à última pergunta, a lexicografia actual assume que um dicionário deve seguir uma abordagem descritiva na selecção das palavras e na forma como as define, usando nomeadamente um conjunto de etiquetas ou sinais para assinalar níveis de língua (como linguagem informal ou calão) ou usos específicos (como expressões depreciativas ou insultuosas), não devendo o autor ou editor do dicionário impor a sua opinião sobre o uso da língua1.

Onde reside afinal o preconceito: nos falantes, que optam propositadamente por ofender com palavras, ou no dicionário, que descreve e indica o uso potencialmente ofensivo de determinados termos? Note-se que, como em muitos outros casos do género, o Dicionário Houaiss assinala as acepções que podem ser consideradas ofensivas com a indicação “pej.”, redução de “pejorativo”. O uso pejorativo é «[...] característico de palavras, expressões ou acepções que são (ou, na dependência do contexto, podem ser) grosseiras, ofensivas, ferinas ou preconceituosas [...]»2.

Ao alertar para termos e empregos preconceituosos, informais ou obscenos, muitas vezes desconhecidos dos falantes, seja porque pertencem a diferentes enquadramentos socioculturais, seja porque são falantes estrangeiros, os dicionários estão a alertar os consulentes para a possibilidade de usarem linguagem ofensiva ou de ferirem as susceptibilidades de outros falantes.

No entanto, nem sempre foi assim, como se pode comprovar consultando o verbete cigano num dicionário de língua portuguesa do início do século XX:

cigano,1 m. Aquelle que pertence á raça dos ciganos. Adj. Trapaceiro; ladino. M. pl. Povo errante e miserável, de procedencia indiana, que, fugindo á invasão mongólica, se distribuiu por todo o mundo, falando dialectos que são prácritos corrompidos, e empregando-se ora em enganar vendedores ou compradores de gados nas feiras, ora na pirataria, no acrobatismo, etc. (Al. zigeuner, russo tzigane).
(in Cândido de Figueiredo, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1913, p. 444)

Um dicionário deve ser feito à medida de uma língua. E, do mesmo modo que não são os repórteres de guerra que fazem a guerra com as atrocidades, crimes e mortes que divulgam nas imagens que registam, não são os dicionários que fazem a língua, são os falantes, tenham eles a nacionalidade, etnia, religião, ideologia, opção sexual, idade ou o género que tiverem.

Como a Priberam já teve oportunidade de explicar, relativamente a galego e às locuções sexo forte e sexo fraco, a função de um dicionário passa por uma descrição dos usos da língua, devendo basear-se essencialmente em factos linguísticos e não estabelecer juízos de valor relativamente a eles, antes apresentá-los o mais objectivamente possível.

Este não é, na língua portuguesa ou em qualquer outra língua, um caso único, pois as línguas, enquanto sistemas de comunicação, veiculam também os preconceitos da cultura em que se inserem, como também refere o comunicado disponibilizado na página do Instituto Antônio Houaiss:

«[...] Nenhum dicionário deve ocultar empregos preconceituosos de palavras quando se vê diante deles. Registramos precisamente o que encontramos, tanto dentro do padrão culto da língua como no informal. Os dicionários não inventam palavras nem acepções. Nesse espelho em que nos constituímos refletem-se a realidade da língua e os sentimentos dos seus falantes, ora com sua beleza e simpatia, ora com sua crueldade, com seus sentimentos e atitudes desfavoráveis para com minorias etc. Ninguém supõe eliminar dos dicionários palavras como guerra, tortura, violência, pedofilia com fim de conter ou impedir que tais tormentos continuem a existir. Fazê-lo seria apenas varrer para debaixo do tapete o que nos envergonha, mas isso não serve de ação preventiva nem eliminadora do mal que tais conceitos e outros preconceitos acarretam. Que fazer nos dicionários em tais casos, então? Registrar a palavra ou a acepção e dizer claramente, quando é o caso, que ela é pejorativa e preconceituosa. É como fazem os dicionários modernos em todo o mundo.»


1 Piet Swanepoel “Dictionary typologies: A pragmatic approach” in Piet van Sterkenburg (ed.), A Practical Guide to Lexicography, John Benjamins Publishing Company, Amsterdam/Philadelphia, 2003, p. 65.
2 Ver o tópico “Nível de uso” da secção “Detalhamento do verbete” em “Conhecendo o dicionário”, na Ajuda do Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa, versão 1.0.5a.

2 comentários:

  1. Devemos apagar tudo o que nos mostre que a língua é igual a nós: preconceituosa, parcial e humana. Devemos branquear os dicionários para que eles não sejam o nosso espelho, sem galegos nem judeus, sem pretos nem amarelos, sem fufas nem rabetas, sem siameses nem mongolóides, sem saídas à francesa nem coisas que são chinês ou grego, sem rachas que são
    vulvas, nem penduricalhos que são falos, sem nazis nem holocaustos, sem mulheres da vida ou da rua ou de má nota, nem proxenetas, nem pedófilos, nem sexo fraco, sem pessoas feias nem gordas nem magras (se calhar deixamos as estúpidas). E assim vamos andando, limpos, correctos, exemplares. Puros e imutáveis, como essa língua que dizemos que é nossa, mas que não existe.

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  2. Mas q coisa disparatada.O Ministério Público Federal de Minas Gerais deve estar a pensar nalgum dicionário d Marciano. D repente,lembrei-me do q aconteceu numa das minhas aulas:1 aluno teimava em usar "bué" e argumentava q a palavra vinha no Dicionário da Academia. Na aula seguinte,levei o tal dicionário e disse ao aluno que nele procurasse 1 palavrão.O aluno não queria e fui eu q encontrei vários, tendo perguntado ao aluno se pensava utilizar algum deles nas minhas aulas.É q um dicionário traz as palavras, mas não obriga a usá-las,a escolha do registo de língua é do utente. Os alunos riram e perceberam. Mas os "doutores" do Ministério Público Federal de Minas Gerais parece que não.No mínimo, ridículo (a ignorância atrevida é sempre ridícula, mais ainda se, para armar ao pingarelho, se escuda em chavões politicamente correctos.).

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