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sexta-feira, 25 de maio de 2018

M de mudança

O ano é 1813. A obra é a 2.ª edição do Diccionario da Lingua Portugueza, recompilado por António de Morais Silva, referência maior da lexicografia portuguesa1. O verbete consultado é mulher (pág. 327):
MULHÉR, s. f. Femea da especie humana. § Matrona, oposto a marido. § Mulher do mundo: meretriz. Eufr. I. 3. Mulher de partido; o mesmo. Costa, Terenc.2 

Avancemos um século, para 1913. A obra é a 2.ª edição do Novo Diccionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, outra referência da lexicografia portuguesa. O verbete consultado é novamente mulher (pág. 1342):
mulhér f. Pessôa do sexo feminino, depois da puberdade. Espôsa: minha mulhér está doente. Fam. Pessôa do sexo feminino, pertencente ás classes inferiores da sociedade: vão alli duas mulheres. Fig. Homem mulherengo. * Pop. Espécie de jôgo popular. (Do lat. mulier)

Avancemos outro século e um tantinho mais, para chegarmos a 2018. A obra é agora o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, dicionário online com mais de 33 milhões de utilizadores3. O verbete consultado continua a ser mulher, mas aconselha-se a sua visualização aqui, por ser bem mais extenso do que os dois acima. A presente versão resulta de uma iniciativa que, à luz do actual papel da mulher na sociedade, questionou o retrato redutor e pouco abonatório que dela é feito em alguns dicionários, incluindo o Dicionário Priberam pelas razões aqui expostas, desafiando os portugueses a contribuírem para a sua revisão.

Como se chegou até aqui? Um dicionário de língua regista o uso que dela é feito em determinada época e por determinado público. Ao percorrer rapidamente dois séculos de inúmeras transformações, verificamos que o mundo mudou, a sociedade mudou, o papel da mulher mudou e o do dicionário também, sendo por isso natural que o verbete mulher reflicta tais mudanças.

Em mais de 200 anos, o progresso e a necessidade de designar novos conceitos e realidades fizeram surgir termos e significados novos, na língua geral e nas mais diversas áreas, e os dicionários dão conta dessa evolução (ex.: astronauta, biodiversidade, caravanismo, digitalizar, esquizofrenia, futebol, genoma, helicóptero, internet, jazz, kickboxing, ludoteca, microfauna, nuclear, óvni, piza, radar, sida, televisão, uquelele, vitamina, wi-fi, xilitol, zoo, etc.).

A evolução implica também mudanças sociais e culturais e o papel da mulher é disso um exemplo: do acesso ao voto e à educação até à sua emancipação profissional e sexual, incluindo questões de identidade de género, muito mudou para a mulher, sobretudo nas últimas décadas. Veja-se o caso da feminização dos nomes de algumas profissões, decorrente do acesso da população feminina a tais cargos, que está na origem de termos como árbitra, bombeira, cirurgiã, embaixadora, mecânica, tatuadora, vice-ministra, etc. Note-se, ainda, a adequação de género gramatical em casos como presidente, chefe, dentista, jornalista ou terapeuta, vocábulos em tempos dicionarizados apenas como substantivos masculinos, e agora como substantivos de dois géneros (ex.: a presidente, o presidente), porque eram desempenhados maioritariamente por pessoas do sexo masculino. A mulher deixou de ser fêmea, esposa ou meretriz no dicionário? Não, mas os dicionários descrevem hoje o que ela é para além dessa visão, combatendo assim a perpetuação de estereótipos.

Em mais de 200 anos, mudou também o formato do dicionário e o seu papel. Numa altura em que a ideia de mudança linguística era por vezes sinónimo de instabilidade, ou mesmo de corrupção, os dicionários impressos do século XIX assumiram um papel normativo, de autoridade, e estabilizaram um pouco a língua. As suas fontes centravam-se em obras literárias (de que são exemplo Eufrosina e Terencio, no verbete mulher de 1813, acima), através das quais se aferia o bom uso de determinado termo ou expressão. É a visão do dicionário como guia do uso correcto da língua4.

Na segunda metade do século passado, porém, esse papel começou a mudar e o paradigma normativo deu lugar a novos modelos de dicionário, mais orientados para o utilizador e para a descrição do uso real da língua5. O desenvolvimento tecnológico e computacional acelerou essa revolução lexicográfica, pois permitiu criar e gerir bases de dados de dicionários, bem como compilar e analisar largas quantidades de informação, dos mais variados domínios e registos de língua, que atestam o seu uso efectivo. O dicionário foi perdendo o estatuto de texto prescritivo, assumindo uma abordagem descritiva na selecção das palavras e na forma como as define. Por fim, quando o suporte físico do papel dá lugar ao suporte electrónico e digital, a informação contida em volumes impressos, pesados e ao alcance de apenas alguns, passa a estar rapidamente acessível através de um toque de dedos e disponível para todos.

O Dicionário Priberam chega ao grande público em plena era digital, como obra online e de acesso gratuito. Sem os condicionamentos de espaço típicos dos dicionários em papel, o Priberam constitui-se uma plataforma lexicográfica inovadora que, para além do conteúdo habitual de um dicionário, facilita a busca, permite pesquisas nas definições, apresenta informação relacionada, como conjugação, parónimos, palavras parecidas e relacionadas, dúvidas linguísticas, propostas de tradução e até evidência do uso real, contextualizado e autêntico da palavra pesquisada em blogues e no Twitter. O dicionário é agora uma ferramenta de consulta, mais próxima do utilizador, com quem permite interacção, e mais dinâmica. O dicionário não ignora o desenvolvimento recente de novos usos linguísticos reveladores de atitudes e realidades contemporâneas. Veja-se o exemplo de casal ou casamento, termos que já não se definem exclusivamente em relação a elementos de sexos diferentes.

O papel do dicionário, como o entendemos, é registar, de forma controlada, os usos da língua e o seu dinamismo. Por essa razão, no Dicionário Priberam haverá sempre espaço para melhoramentos, sugestões de inclusão, de correcção ou comentários que possam beneficiar o seu conteúdo. Os mesmos podem ser enviados para o endereço do costume: dicionario@priberam.pt. Estamos no entanto conscientes de que, por mais palavras e sentidos que um dicionário registe, nenhum dicionário regista todos os vocábulos e sentidos de uma língua e o Dicionário Priberam não é excepção. A língua é uma entidade viva que não se contém nas páginas de um dicionário e a sua mudança é inevitável:

«It is a great pity that language cannot be the exact, finely attuned instrument that deep thinkers wish it to be. But the facts are, as we have seen, that the meaning of practically any word is susceptible to change of one sort or another, and some words have so many individual meanings that we cannot really hope to be absolutely certain of the sum of these meanings.»6

Terminamos com duas perguntas: se avançarmos mais um século, qual será a definição de mulher em 2118? E que tipo de dicionários teremos daqui a cem anos?

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Notas:
2 Eufr. é abreviatura de Eufrosina, comédia de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1616). Costa, Terenc. é abreviatura da obra As primeiras quatro comedias de Publio Terencio Africano, traduzida por Leonel da Costa (1788).
4 B. T. Atkins, Michael Rundell (2008), The Oxford Guide to Practical Lexicography, Oxford: O.U.P., pág. 2.
5 R. R. K. Hartmann, Gregory James (2002), Dictionary of Lexicography, London & New York: Routledge, pp. viii-ix.
6 Thomas Pyles, John Algeo (1993), The Origins and Development of the English Language, 4.ª ed., Fort Worth: Harcourt Brace Jovanovich College Publishers, pág. 256.

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