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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (II)

Algumas implicações da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO) em correctores ortográficos foram alvo de análise em O novo acordo ortográfico e os correctores automáticos, comunicação da Priberam apresentada em Agosto deste ano ao IX Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Uma breve entrevista da mesma altura, ao programa Páginas de Português, da Antena 2, aborda também esta problemática, ainda que sumariamente.

Nesta análise, como nas reflexões que habitualmente faz sobre o tema, a Priberam não pretende esgrimir argumentos contra ou a favor do Acordo Ortográfico, mas antes fazer uma análise sob uma perspectiva prática e contribuir para um debate pouco frequente relativamente ao texto do AO: o da sua aplicação efectiva. Neste aspecto, é inequívoco que o AO tem consequências no processamento da língua natural (PLN) e nos correctores ortográficos em particular, mas também em auxiliares de tradução ou em motores de busca.

Curiosamente, o próprio texto legal do AO tem, aparentemente, preocupações específicas com o PLN, como se pode ler no ponto 5.3. da "Nota Explicativa", aquando da explicitação das razões ponderadas para a manutenção dos acentos gráficos nas palavras esdrúxulas e graves, recuando assim no estipulado pelo texto de 1986, o que, a manter-se em 1990, constituiria "problema para o tratamento informatizado do léxico".

Este argumento não parece, no entanto, ser pertinente, dado o elevado número de ambiguidades entre classes gramaticais que a língua contém e que o PLN tem obrigatoriamente de tratar. Mais do que isso, a eliminação das consoantes ditas "mudas" (ver Base IV) vai aumentar o número de palavras homógrafas (ex.: a(c)to/ato, substantivo e flexão verbal de atar; ó(p)tico/ótico, adjectivo relativo à vista e ao ouvido, respectivamente). A mesma consequência terá a eliminação do acento gráfico que distinguia palavras graves homógrafas de palavras proclíticas (ver Base IX, 9.º), como no caso de para, 3ª pessoa do singular do indicativo do verbo parar e preposição.

O principal problema na aplicação do AO prende-se com a qualidade do texto legal, que, devido a lacunas, ambiguidades e incoerências, gera dificuldades acrescidas. Há no mercado português dicionários que publicitam seguir a ortografia preconizada pelo Acordo de 1990, obras que terão implicado certamente tempo e trabalho aturado de lexicógrafos. No entanto, as diferentes opções de dois dicionários para um número considerável de palavras são a prova manifesta de que o texto legal não é razoavelmente claro nem suficientemente objectivo para impedir diferentes interpretações ortográficas.

Apenas a título de exemplo, veja-se as divergências publicadas por dois desses dicionários relativamente a:

- acentuação

Texto Editores*Porto Editora**
cômoro/cómorocômoro
fêmeafêmea/fémea
géisergeiser

- grafia de consoantes
Texto Editores*Porto Editora**
anfractuoso/anfratuosoanfractuoso
excepção/exceçãoexceção
manufaturamanufactura/manufatura
perfeccionistaperfeccionista/perfecionista
tacto/tatotato
tectónico/tectônico/tetónico/tetônicotectónico/tectônico
tumefactotumefacto/tumefato
veredictoveredicto/veredito

- uso do hífen
Texto Editores*Porto Editora**
abrogaçãoab-rogação
céu da bocacéu-da-boca
indoeuropeuindo-europeu
maria vai com as outrasmaria-vai-com-as-outras
para quedasparaquedas
re-entrarreentrar
sobre-excitarsobreexcitar
subreptíciosub-reptício
tão somentetão-somente


Desta pequena reflexão, parece óbvia a conclusão de que, enquanto não houver instrumentos reguladores da ortografia, nomeadamente das duas academias (Academia das Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras), quem tem de trabalhar com a ortografia vai ter problemas na aplicação do AO (falamos do trabalho na Priberam, mas também do trabalho de jornalistas, de tradutores, de revisores, de professores...), daí que a confiança num corrector ortográfico automático, como o FLiP, se revista de grande importância para quem tem de seguir impreterivelmente as alterações ortográficas introduzidas pelo Acordo.

*Novo Dicionário da Língua Portuguesa Conforme Acordo Ortográfico, Lisboa: Texto Editores, 2007.
**Novo Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2009 – Acordo Ortográfico, Porto: Porto Editora, 2008.

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