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sexta-feira, 18 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)


Prestamos homenagem ao escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro (Prémio Camões 2008), falecido hoje no Rio de Janeiro, através dos seguintes excertos das suas crónicas, onde é bem visível a relação do autor com a língua portuguesa.

«[...] Um pouco febril às vezes, chegava a ler dois ou três livros num só dia, sem querer dormir e sem querer comer porque não me deixavam ler à mesa -- e, pela primeira vez em muitas, minha mãe disse a meu pai que eu estava maluco, preocupação que até hoje volta e meia ela manifesta.
--  Seu filho está doido -- disse ela, de noite, na varanda, sem saber que eu estava escutando. -- Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.
-- Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.
-- Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.
-- Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?
-- O Lello.
-- Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação. [...]»

João Ubaldo Ribeiro, “Memória de livros” in Um brasileiro em Berlim, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1995, pág. 137, via Projeto Releituras [página consultada em 18-07-2014]. 



«A gramática é a mais perfeita das loucuras, sempre inacabada e perplexa, vítima eterna de si mesma e tendo de estar formulada antes de poder ser formulada — especialmente se se acredita que no princípio era o Verbo. Estou estudando gramática e fico pasmo com os milagres de raciocínio empregados para enquadrar em linguagem “objetiva” os fatos misteriosos da língua. Alguns convencem, outros não. Estes podem constituir esforços meritórios, mas se trata de explicações que a gente sente serem meras aproximações de algo no fundo inexprimível, irrotulável, inclassificável, impossível de compreender integralmente. Mas vou estudando, sou ignorante, há que aprender. Meu consolo é que muitas das coisas que me afligem devem afligir vocês também. Ou pelo menos coisas parecidas. [...]»

João Ubaldo Ribeiro, “Questões gramaticais” in Arte e ciência de roubar galinha: crônicas, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1998, pp. 96-100, via Scribd [página consultada em 18-07-2014].

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